Eis o espetáculo: o sujeito chega em casa com o veículo elétrico recém adquirido, aquele que lhe foi vendido como passaporte moral para a salvação climática, conecta o cabo na tomada do condomínio construído nos anos noventa e descobre, num átimo, que a fiação tem a mesma idade do seu filho mais velho. O prédio range, o disjuntor sua frio, o síndico desaparece e a seguradora, essa criatura mitológica que cobra prêmio mas nunca aparece para pagar sinistro, começa a estudar cláusulas com a dedicação de um monge beneditino diante de um manuscrito proibido. A modernidade prometida bate de frente com a infraestrutura real, e quem leva o tombo é sempre o mesmo: o pagador de imposto que financiou a fantasia.
Pergunta elementar, daquelas que nenhum ministro do clima responde sem engasgar: quem ganhou dinheiro nessa festa? Os fabricantes de automóveis, claro, que receberam montanhas de subsídio público para produzir carros que ninguém compraria pelo preço real. As consultorias verdes, que vivem de auditar metas inventadas por outras consultorias verdes. Os fundos de investimento ESG, que cobram taxa de administração para empurrar ações de empresas dependentes de benesse estatal. E os políticos, sempre os políticos, que posam de salvadores do planeta diante de câmeras enquanto vendem regulação como quem vende indulgência na Idade Média. Quem perdeu? O cidadão comum, duplamente espoliado: paga o subsídio com o imposto, paga o carro com o salário e ainda recebe de brinde o risco de churrasco involuntário na garagem.
Há uma lógica de ferro nessa engenharia da insensatez. Se o objetivo declarado é reduzir emissões, a premissa exige infraestrutura compatível, instalações elétricas aptas, corpo de bombeiros treinado, legislação clara, normas de condomínio adaptadas. Nada disso existe em escala. A conclusão inevitável, portanto, não é ambiental, é política: o objetivo real nunca foi a transição energética, foi a transferência de renda do contribuinte para o cartel verde. As coisas são o que produzem, não o que prometem nos folhetos do governo. E o que essa política produz, na prática, é insegurança patrimonial, encarecimento da habitação, judicialização de sinistros e bombeiros olhando para uma bateria de lítio em chamas com a mesma cara de quem encara um disco voador.
Apagar incêndio de bateria de lítio, registre se, não é apagar fogo. É conter reação química prolongada que pode durar dias, exige toneladas de água, isolamento térmico e equipamento que a maioria dos quartéis europeus, quanto mais portugueses, simplesmente não tem. Quando a tecnologia chega antes do conhecimento operacional para lidar com ela, alguém vai pagar o preço da pressa, e nunca é o burocrata que assinou o decreto na sala climatizada de Bruxelas. É o porteiro que vai abrir a garagem pela manhã. É a família do andar de cima que dormia tranquila. É o pequeno proprietário que descobre, na letra miúda da apólice, que sua seguradora considera bateria de lítio risco excluído. A conta da utopia chega sempre endereçada para quem não foi convidado para a festa.
O mais delicioso da farsa é a moralidade compulsória que veio embalada com o produto. Quem ousar perguntar se a rede elétrica aguenta, se o condomínio está preparado, se o seguro cobre, se o bombeiro sabe operar, é prontamente catalogado como negacionista climático, inimigo do progresso, agente do petróleo. Funciona como nas grandes superstições oficiais da história: primeiro se decreta o dogma, depois se persegue o herético, e só muito depois, quando os cadáveres já se acumulam, alguém timidamente sugere que talvez, quem sabe, valesse a pena ter verificado os fatos antes. Enquanto isso, a propaganda segue, o subsídio segue, o cartel segue lucrando e o cidadão segue pagando, agora com o bônus de poder explodir junto com o próprio investimento.
No fim da linha, o veredito é o mesmo de sempre nessas grandes campanhas de salvação coordenadas por gabinete: privatizam se os lucros, socializam se os incêndios. Quem paga é o contribuinte português que jamais será consultado. Quem recebe são os de sempre, montadoras subsidiadas, consultorias parasitárias, políticos em busca de palco verde e seguradoras prontas a cobrar prêmio e negar sinistro. O carro elétrico não é o problema, problema é o arranjo político que o impôs antes que o mundo real estivesse pronto para recebê lo. Quando a próxima garagem pegar fogo em Lisboa ou no Porto, lembre se: aquilo não é acidente, é política pública funcionando exatamente como foi desenhada para funcionar.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.