A casa pegou fogo. Isso é o fato, nu e sem enfeite. Rogério Alves e Claudia Baronesa, pais do cantor MC Gui, viram a residência deles na Vila Formosa ser consumida pelo fogo num domingo de manhã, saíram vivos por pouco e ficaram sem praticamente nada. Até aqui, tragédia doméstica, dor privada, o tipo de coisa que acontece e que merece compaixão sem reservas. Mas existe uma segunda camada nessa história que ninguém vai noticiar no telejornal das sete, porque ela incomoda demais quem está confortável demais.
São Paulo é a cidade mais rica da América Latina. Repita isso em voz alta até que faça sentido. A cidade mais rica do continente, com um orçamento municipal que envergonha países inteiros, com uma máquina tributária que devora o contribuinte com eficiência quase comovente, com secretarias, autarquias, fundações, subprefeituras e toda sorte de organismo parasitário que justifica sua existência prometendo, em tese, proteger o cidadão. E na Zona Leste, a região mais populosa e mais abandonada dessa metrópole colossal, uma família perde tudo para o fogo numa manhã de domingo. A pergunta que o bom senso exige é simples: onde estava o Estado quando o telhado desabava?
A resposta, claro, é que o Estado estava onde sempre está: cobrando. O IPTU foi pago, o ISS incidiu sobre cada serviço contratado, o ICMS pesou em cada material de construção que levantou aquelas paredes. A família, como qualquer família de trabalhador da Zona Leste, financiou com suor e tributo uma estrutura municipal que promete, em troca, segurança, infraestrutura e proteção. O que recebeu de volta foi a ilusão contábil de um contrato social que uma hora vai, literalmente, pegar fogo. Não há hipocrisia mais cara nem mais bem-distribuída do que a do poder público que arrecada como leão e entrega como camundongo.
Há algo de arquetípico nessa cena, algo que civilizações muito mais antigas já reconheciam com clareza: a cidade que não protege seus moradores menores não é uma cidade, é um esquema de extorsão com fachada institucional. Roma antiga entendia isso. Quando o Tibre transbordava e as insulae da plebe pegavam fogo, o senado romano era cobrado com a ferocidade que a situação exigia, porque a ideia de cidade pressupõe, no mínimo, que os muros sirvam para algo além de decoração política. São Paulo, neste domingo, não passou nesse teste mínimo. E a Vila Formosa, bairro de gente que acorda cedo, paga seus boletos e não aparece nas fotos de inauguração de nenhuma obra, continua sendo o que sempre foi: o lado da cidade que existe para financiar o outro lado.
MC Gui vai, provavelmente, reconstruir a casa dos pais. Ele tem os meios e, ao que tudo indica, tem o caráter. Seus pais estão vivos, e isso é o que importa em primeiro lugar. Mas a esmagadora maioria das famílias que amanhã cedo vão perder suas casas para o fogo, a enchente ou o descaso na Zona Leste de São Paulo não vai ter filho famoso para bancar a reconstrução. Vão ter o Bolsa Família, o assistente social municipal, o processo burocrático kafkiano de defesa civil que vai produzir um relatório, arquivar o relatório e esquecer que havia uma família do outro lado do papel. É assim que funciona o socorro público: lento na chegada, rápido no esquecimento e perpétuo na cobrança.
O fogo não escolhe endereço, mas o abandono, esse sim, tem CEP. Tem subprefeitura, tem vereador eleito, tem gabinete com ar-condicionado e assessor de imprensa. E tem, acima de tudo, a desfaçatez de se apresentar como solução para os mesmos problemas que ajuda a perpetuar. A família de MC Gui sobreviveu. Que tenha força para reconstruir. E que alguém, um dia, tenha a honestidade de perguntar em voz alta por que uma metrópole tão rica insiste em tratar seus cidadãos mais pobres como se fossem despesa, não como se fossem razão de existir.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.