A FIFA acaba de vender, no varejo de luxo, mais um pedaço do entretenimento planetário. A Zee Entertainment, gigante de mídia indiana, levou para casa o pacote completo: Copa do Mundo masculina de 2026, edição de 2030, Mundial Feminino de 2027 e mais trinta e seis torneios espalhados até 2034. Um lote, uma assinatura, quase uma década de exclusividade audiovisual sobre um mercado de um bilhão e quatrocentos milhões de espectadores potenciais. Não é um contrato esportivo. É uma concessão de soberania cultural negociada entre uma entidade privada suíça e um conglomerado privado indiano, com o torcedor entrando na conversa apenas no momento de pagar a assinatura.
Convém lembrar o que a FIFA realmente é: uma associação registrada em Zurique, isenta de impostos sobre boa parte de suas receitas, que opera como cartel global sobre um esporte que não inventou e não pratica. Vende o que não produz, regula o que não construiu, lucra com o que pertence, em última análise, aos clubes amadores de várzea espalhados pelos cinco continentes. O modelo é antiquíssimo, vem da época em que reis europeus vendiam monopólios sobre sal, especiarias e tabaco a comerciantes favorecidos. Mudou-se o produto, manteve-se a lógica: alguém com poder de exclusão cobra pedágio sobre o desejo alheio.
A Zee, do outro lado da mesa, não é uma instituição filantrópica preocupada com a difusão do esporte. É um grupo que enfrentou nos últimos anos investigações sobre desvio de recursos, fusão fracassada com a Sony, queda de receita e necessidade urgente de um ativo de prestígio que estancasse a hemorragia de credibilidade junto a anunciantes e bancos. Comprar a Copa do Mundo, nesse contexto, equivale a comprar oxigênio reputacional. Quem paga essa transfusão? O assinante indiano que vai ver o preço do pacote subir, o anunciante que repassa o custo no preço do sabão em pó, o consumidor final que financia, sem perceber, o resgate corporativo de uma emissora em apuros.
Há ainda a geografia do contrato, que não é acidental. A Índia foi escolhida pela FIFA como próxima fronteira de monetização porque a Europa está saturada, a América Latina empobrecida e os Estados Unidos já entregaram tudo o que tinham para entregar via Fox e Telemundo. Sobrou o sul asiático, onde a classe média cresce, o smartphone se multiplica e a regulação estatal sobre direitos de transmissão é frouxa o bastante para permitir contratos plurianuais blindados contra qualquer revisão pública. Quando um cartel europeu de bilhões em caixa encontra um mercado emergente com regulador permissivo, o resultado é sempre o mesmo: o consumidor local paga preço de primeiro mundo por um produto que custa centavos para ser distribuído.
E há a parte que ninguém comenta nas notas oficiais: a próxima Copa, em 2026, será sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, com expansão para quarenta e oito seleções, estádios reformados com dinheiro público, segurança subsidiada pelos contribuintes das três nações, infraestrutura de transporte bancada por orçamentos municipais. A FIFA, que não pagará um centavo dessa conta, embolsará os direitos de transmissão e revenderá globalmente para emissoras como a Zee. A socialização dos custos e a privatização dos lucros, esquema clássico, agora aplicado ao futebol com a mesma elegância com que foi aplicado aos resgates bancários de 2008 e às campanhas de vacinação compulsória da década passada.
No fim das contas, o torcedor que acorda às cinco da manhã para ver a seleção jogar, o pai que economiza para comprar a camisa do filho, o pedreiro que aposta o último trocado no bolão da firma, esse é o verdadeiro acionista invisível de toda essa engrenagem. Paga o ingresso, paga a assinatura, paga o imposto que constrói o estádio, paga o anúncio embutido no preço do refrigerante. E recebe, em troca, noventa minutos de emoção controlada por contrato suíço, transmitida por satélite indiano, patrocinada por banco árabe e regulada por ninguém. O pão e o circo romanos, ao menos, eram financiados pelo imperador. O nosso circo cobra entrada, cobra a poltrona, cobra a transmissão e ainda nos convence de que somos privilegiados por assistir.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.