Josep Maria Recasens, até ontem braço direito de Luca de Meo na Renault, foi anunciado como o novo CEO da Indra. A imprensa de negócios vendeu o anúncio com aquele ar de "executivo de classe mundial assume desafio estratégico", parágrafo cheio de adjetivos, foto sorridente, jargão de transformação digital. Olha, antes de comprar a narrativa, vale lembrar o detalhe inconveniente que ninguém da seção de mercados quer destacar: a Indra não é uma empresa privada qualquer disputando clientes no balcão. A SEPI, a sociedade estatal de participações industriais do governo espanhol, é a maior acionista. E uma empresa que tem o Estado como sócio de referência não escolhe CEO, ela recebe CEO.
O cargo está vago porque Marc Murtra subiu para presidir a Telefónica, outra empresa onde o mesmo Estado meteu a mão recentemente para reforçar sua presença acionária. Quer dizer, o mesmo grupo político que se diz adepto do livre mercado vai recolocando suas peças no tabuleiro, com a paciência de quem joga xadrez sabendo que o tabuleiro foi comprado com dinheiro do contribuinte. Recasens vem da Renault, outra empresa onde o Estado francês historicamente sentou na cabeceira da mesa. O sujeito não está mudando de mundo, está apenas mudando de freguesia dentro do mesmo capitalismo de compadrio europeu.
Siga o dinheiro e a história fica menos romântica. A Indra fatura bilhões com contratos de defesa, controle de tráfego aéreo, sistemas eleitorais, identidade digital, modernização de forças armadas. Cada um desses contratos é pago, no fim da linha, pelo trabalhador espanhol que entrega quase metade do que ganha ao fisco. Não existe contrato público sem imposto, não existe imposto sem confisco, e não existe confisco sem alguém na cadeira de Madri decidindo quem vai receber o cheque. O CEO da Indra não trabalha apenas para os acionistas minoritários, ele trabalha para o ministro de plantão. E é por isso que essas trocas são anunciadas como decisões corporativas quando, na prática, são nomeações políticas com etiqueta de fusion acquisitions.
Há um truque retórico antigo nessa engenharia. Chama-se de "campeão nacional" uma empresa que, na origem, deveria competir como qualquer outra, mas que recebe blindagem regulatória, prioridade em licitações, financiamento subsidiado e proteção contra capital estrangeiro indesejado. Em troca, o governo ganha um instrumento de política industrial disfarçado de SA listada em bolsa. O acionista pequeno acha que comprou ação, comprou na verdade uma fração de um braço do Estado. E quando o vento muda, é o pequeno que toma o prejuízo, enquanto o sócio público sai pela porta dos fundos com a desculpa do interesse estratégico nacional. Sempre foi assim, na Espanha, na França, na Alemanha e, com sotaque tropical, também aqui.
A pergunta que ninguém faz nas matérias de negócios é simples: por que diabos um setor de tecnologia e defesa precisa do Estado como sócio de referência em pleno 2026? A resposta honesta é que não precisa, mas o Estado precisa dele. Precisa do balcão de empregos para apadrinhados, precisa do canal de compras dirigidas, precisa do poder simbólico de dizer que controla as joias da coroa industrial. O discurso muda conforme o partido no poder, ora se fala em soberania, ora em transição verde, ora em autonomia estratégica europeia. O conteúdo é o mesmo desde o mercantilismo do século XVII: privilégio para os amigos do rei, fatura para o súdito.
Recasens pode até ser competente, e provavelmente é, ninguém chega ao topo da Renault distribuindo currículo na portaria. O ponto não é o homem, é o arranjo. Enquanto a Indra continuar sendo um híbrido de empresa e ministério, qualquer CEO será, antes de tudo, um gestor de relações políticas, e os ganhos de eficiência que o mercado livre produziria sozinho continuarão sendo cobrados em forma de imposto, inflação e dívida pública. Trocar o capitão de um navio que navega com vento estatal não muda a rota, só muda quem aparece na foto. E a foto, como sempre, é paga por quem nunca foi convidado para o jantar de posse.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.