Mohamed Salah, o homem que sozinho move mais camisas do que muitos países movem produtos de exportação, sai de campo com o posterior da coxa rasgado e some dos gramados por pelo menos quatro semanas. O comunicado oficial veio embalado em retórica esportiva, daquelas que falam em recuperação, fisioterapia e otimismo, como se o assunto fosse apenas um músculo. Não é. Quando um atleta dessa magnitude tropeça, o que cai junto é uma cadeia inteira de contratos, projeções de receita, cláusulas de imagem e expectativas de marketing que envolvem cifras maiores que o PIB de várias ilhas caribenhas que servem de paraíso fiscal para os mesmos clubes.

O Liverpool, que há anos transformou o egípcio em totem comercial, agora descobre na carne o que toda corporação descobre cedo ou tarde, a saber, que apostar tudo num único ativo humano é estratégia de cassino disfarçada de gestão. Standard Chartered, Nike, AXA, todos os parceiros que carimbam o peito e a manga da camisa vermelha calculam silenciosamente o impacto da ausência sobre engajamento, vendas no Oriente Médio, no Sudeste Asiático, no norte da África, regiões onde o rosto de Salah vale mais que qualquer campanha publicitária produzida em Londres. O capitalismo de espetáculo não chora pelo atleta lesionado, ele recalcula a planilha.

E há a outra ponta da história, que dirigentes egípcios já trataram de antecipar com a delicadeza de um vendedor de carro usado, garantindo que o craque estará pronto para a Copa do Mundo. Convém estar. Uma seleção africana sem sua estrela máxima é receita pública minguada, patrocínio estatal questionado, viagem oficial menos rentável para a comitiva de cartolas que sempre acompanha esses eventos com passaportes diplomáticos e diárias generosas. O futebol, que se vende como paixão popular, é há décadas um instrumento sofisticado de propaganda governamental, do Cairo a Doha, de Riad a Buenos Aires.

A lesão escancara também a brutalidade do calendário imposto aos jogadores, calendário desenhado por federações que tratam corpos humanos como minério a ser extraído até a exaustão. Champions League, Premier League, Copa Africana, eliminatórias, amistosos lucrativos em estádios do Golfo, tudo empilhado num cronograma que ignora qualquer noção elementar de fisiologia. Quando o tendão arrebenta, a culpa nunca é da entidade que vendeu o produto, é sempre do atleta que não soube se cuidar, narrativa conveniente que protege os verdadeiros beneficiários do moedor de carne.

No fim das contas, o torcedor do Liverpool segue pagando assinatura de streaming, ingresso superfaturado, camisa nova a cada temporada, enquanto o trabalhador egípcio comum, que enxerga em Salah um símbolo de superação num país sufocado por inflação, controle cambial e regime militar fantasiado de civil, terá que esperar para saber se seu herói chegará inteiro ao Mundial. O espetáculo continua, os contratos seguem assinados, e os custos da máquina, como sempre, recaem sobre quem nunca foi consultado sobre nada.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.