Os números são públicos, constrangedoramente públicos, e ainda assim sobrevivem ao escrutínio com uma elegância que só a cumplicidade diplomática explica. Mais de 9.600 palestinos estão trancafiados em presídios israelenses neste momento, e a maioria deles não foi condenada por tribunal algum. O instrumento jurídico que viabiliza essa aritmética sinistra chama-se detenção administrativa, eufemismo herdado do mandato britânico, ressuscitado com zelo burocrático e aplicado em massa: o Estado prende, renova a prisão a cada seis meses, e o preso não sabe do que é acusado porque as evidências são "secretas". Nas masmorras do Antigo Regime chamavam isso de lettre de cachet. No século XXI, chamam de segurança nacional.
Siga o fluxo de caixa, porque ele explica mais do que qualquer manifesto. O sistema prisional israelense é operado pela Israel Prison Service, uma máquina que consome orçamento público bilionário e terceiriza alimentação, transporte, manutenção, vigilância eletrônica e infraestrutura para um ecossistema de empresas privadas que faturam por cabeça encarcerada. Cada palestino detido é uma diária, um contrato, uma linha de receita em planilha corporativa. A tecnologia de vigilância usada nos checkpoints e nas celas é depois exportada como produto testado em campo, vendida a polícias do mundo inteiro com o selo implícito de "funciona em ambiente hostil real". Gaza e a Cisjordânia viraram vitrine, laboratório e catálogo. A ocupação não é custo, é centro de lucro.
E quem banca? O contribuinte americano, antes de tudo, através dos 3,8 bilhões de dólares anuais de ajuda militar que não são caridade, são subsídio a fabricante de armas com CEP em Washington. Cada dólar enviado a Tel Aviv retorna multiplicado aos cofres da Lockheed, da Raytheon, da General Dynamics, que produzem as bombas, os tanques e os drones que transformam bairros inteiros em ruínas necessitando reconstrução, reconstrução que será financiada por outro pacote de ajuda, executada por outras empresas, em ciclo perfeito. O contribuinte europeu paga a conta humanitária, o americano paga a conta militar, o palestino paga com a vida, e o acionista recebe dividendo trimestral sem nunca ouvir um tiro. É o mais eficiente esquema de transferência de renda já inventado: do trabalhador de Ohio e do aposentado de Berlim direto para o fundo de pensão que compra ações de defesa.
A narrativa oficial exige que você enxergue apenas metade do quadro. Os reféns israelenses têm nome, rosto, biografia, família em rede de televisão; os reféns palestinos têm número de prontuário e geralmente menos de dezoito anos. Cerca de trezentas crianças estão presas neste momento, algumas por atirar pedras, atitude que em qualquer código penal civilizado do planeta renderia advertência, serviço comunitário, no máximo um susto pedagógico. Sob tribunais militares que julgam palestinos, rende anos. A taxa de condenação desses tribunais beira os noventa e nove por cento, marca que envergonharia os expurgos stalinistas por excesso de transparência. Tortura sistemática foi documentada por ONGs israelenses, não apenas palestinas. Greves de fome contra essa realidade renderam corpos esqueléticos em alas hospitalares acorrentados à cama.
A história ensina, para quem se dá ao trabalho de ler, que todo sistema de dominação territorial de longa duração precisa de três ingredientes: uma população subalterna sem direitos políticos, um aparato jurídico que legalize o arbítrio e uma narrativa moral que blinde o projeto contra crítica externa. Os otomanos tinham o millet, os britânicos tinham o indirect rule, os sul-africanos tinham o apartheid, a França tinha a Argélia com seus centros de triagem onde acontecia exatamente o que acontece hoje nas unidades de Ofer e Megiddo. Todos acharam que durariam para sempre. Todos caíram. A diferença é que os atuais operadores têm relações públicas melhores e um lobby mais eficiente em Washington, Londres e Bruxelas, capaz de transformar crítica em acusação de preconceito e ocupação em legítima defesa preventiva.
No fim das contas, o que sobra é o indivíduo concreto, sempre ele: o adolescente de quinze anos que acordou para ir à escola e dorme hoje em cela superlotada sem saber a acusação, a mãe que peregrina entre tribunais militares onde não pode testemunhar no próprio idioma, o pai que recebe o corpo do filho sem direito a enterro público porque o cadáver virou moeda de troca diplomática. Do outro lado do muro, o jovem conscrito israelense, muitas vezes sem nenhuma convicção ideológica, é obrigado a operar essa engrenagem e sai de lá com estresse pós-traumático vitalício, um dano colateral que o Estado também não contabiliza. Dois povos capturados pelo mesmo aparato, um acima e outro abaixo da bota, ambos servindo a interesses que não são os seus. No balanço final, quem lucra nunca aperta gatilho, e quem aperta gatilho nunca lucra.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.