Existe um padrão tão repetido na história que já deveria ter nome próprio: toda vez que a natureza resolve gratuitamente um problema humano, aparece uma indústria para cobrar pela solução e um aparato regulatório para desacreditar o que é gratuito. O sono, que durante milênios foi resolvido com trabalho honesto, uma boa refeição e o silêncio da noite, virou patologia clínica, síndrome diagnosticável e, claro, mercado bilionário. A melatonina sintética, embalada em frasquinhos com arte gráfica sofisticada e preço de whisky escocês, ocupa prateleiras de farmácias com a autoridade de quem inventou o sono, quando na verdade apenas copiou, piorou e encareceu o que a cereja, o tomate, a aveia e a banana fazem há séculos nas mesas de pessoas que ainda se alimentam como gente.

A Clínica Mayo e a Escola de Medicina de Harvard, instituições que o brasileiro médio reverencia com devoção quase religiosa, confirmam o óbvio: alimentos comuns da dieta cotidiana contêm melatonina natural e compostos que favorecem o sono reparador. Cerejas ácidas, nozes, kiwi, leite morno, aveia integral, tomate. Nada que exija prescrição, nada que precise de logística de cadeia fria, nada que gere dependência e nada, sobretudo, que precise da bênção de nenhum conselho regulatório para ser ingerido por um adulto que se respeita. E no entanto, a narrativa dominante, aquela que circula nos consultórios de planos de saúde superlotados e nos influenciadores de bem-estar que faturam em cima da sua ansiedade, é sempre a do suplemento, do protocolo, do produto.

Siga o dinheiro e você entende o mapa. O mercado global de suplementos de melatonina movimentou mais de dois bilhões de dólares em 2024 e a projeção é de crescimento contínuo. Por outro lado, nenhum produtor de cereja vai financiar um congresso médico, nenhum cultivador de aveia vai patrocinar um simpósio de neurologia do sono, nenhum dono de quitanda vai bancar a formação continuada de médicos. Então o conhecimento que chega ao consultório é o conhecimento que foi pago para chegar até lá, e o conhecimento que foi pago para chegar até lá tem invariavelmente um código de barras. Isso não é teoria da conspiração, é contabilidade básica. O problema não é que a indústria farmacêutica existe, o problema é que ela colonizou o vocabulário da medicina de tal forma que o médico que recomenda uma taça de leite morno com aveia antes de dormir parece ingênuo, enquanto o que escreve uma receita de melatonina sintética parece científico. A inversão é perfeita.

O mecanismo aqui é o mesmo que se repete em outras áreas da vida administrada pelo Estado e pelos seus parceiros corporativos: criar dependência onde havia autonomia, substituir o saber popular acumulado por gerações de experiência concreta pelo protocolo chancelado por quem tem interesse no protocolo. O homem que plantava sua horta sabia que certas ervas ajudavam a dormir. A mulher que criava filhos sabia que leite morno à noite funcionava. Esse conhecimento não precisava de artigo em revista indexada para ser válido, porque a validação era a própria experiência repetida e transmitida. A ciência moderna, quando funciona bem, confirma esse conhecimento e explica o mecanismo. Quando funciona mal, que é quando está capturada por interesses financeiros, descarta o conhecimento popular como folclore e vende de volta, embalado e patenteado, a mesma coisa que já existia.

A insônia, diga-se de passagem, tem causas que nenhum suplemento resolve: excesso de luz artificial à noite, telas até a meia-noite, alimentação industrializada, sedentarismo, ansiedade crônica produzida por um ambiente econômico e cultural que nunca deixa ninguém verdadeiramente em paz. Tratar isso com melatonina sintética é como colocar um band-aid numa fratura exposta e chamar de tratamento. Mas o band-aid se vende, a fratura se conserta, e no mercado do sofrimento gerenciado o que importa é a recorrência do cliente, não a resolução do problema. Um paciente curado é um cliente perdido. Um paciente cronicizado é uma anuidade.

A informação está disponível, confirmada pelas melhores instituições médicas do mundo e não custa um centavo: ajuste a alimentação, inclua os alimentos certos nas horas certas, apague as telas, restitua o ritual ancestral da preparação para o descanso. O sono que você está comprando em cápsulas já existia na sua despensa. A questão nunca foi de acesso ao produto, foi de acesso à informação sem intermediários que lucram com a sua ignorância.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.