A iPower acaba de publicar, com a solenidade de quem entrega vacina em hospital de campanha, seu plano de recomprar até dois milhões de dólares em ações próprias. O comunicado vem embrulhado naquele papel de presente que toda diretoria adora usar, retorno ao acionista, confiança no valor intrínseco, alinhamento de interesses, e por aí vai a ladainha. Olha, quando uma empresa precisa comprar as próprias ações para sustentar o preço, ela está admitindo, sem dizer com todas as letras, que o mercado deixou de acreditar nela e que a gestão também não tem uma única ideia melhor para alocar aquele dinheiro.
Recompra de ações, no fundo, é o equivalente corporativo do sujeito que entra no próprio leilão para dar lance na própria casa e fingir que existe interessado. O efeito imediato no preço é cosmético, o efeito no balanço é contábil, e o efeito sobre os bônus dos executivos costuma ser bastante real. Quer dizer, reduz-se o número de ações em circulação, o lucro por ação sobe artificialmente, as metas atreladas a esse indicador são batidas, e os mesmos diretores que decidiram a recompra recebem o bônus pela performance que eles mesmos fabricaram. É um circuito fechado de autoatendimento que ninguém ousa chamar pelo nome.
Existe ainda o detalhe inconveniente de que dois milhões de dólares queimados em recompra são dois milhões que não foram investidos em pesquisa, em expansão, em novos mercados, em pagamento de dívida, em qualquer coisa que produza valor genuíno no futuro. O que se vê é o anúncio bombástico e a pequena alta do papel na semana seguinte. O que não se vê é a fábrica que não foi construída, o engenheiro que não foi contratado, o produto que não chegou ao consumidor. Toda escolha tem custo de oportunidade, e essa escolha grita que a empresa não enxerga uso melhor para o próprio dinheiro do que comprar a si mesma.
Há também o ponto delicado da assimetria informacional, que ninguém comenta em conferência com investidor. Quem decide a recompra são exatamente as pessoas que possuem mais informação sobre o estado real da companhia do que qualquer acionista minoritário. Se eles compram, é porque sabem algo que você não sabe, ou porque querem que você acredite em algo que eles próprios não acreditam. Nas duas hipóteses, o pequeno investidor é a parte mal informada da equação, e há séculos o mercado financeiro funciona transferindo riqueza dos mal informados para os bem informados, com brindes de relatório bonito no meio do caminho.
Programas de recompra proliferaram nas últimas décadas justamente porque o dinheiro barato dos bancos centrais transformou diretorias inteiras em alquimistas de engenharia financeira. Em vez de competir no mercado real, criando produtos melhores e atendendo o cliente, a turma descobriu que era mais fácil engordar o preço da ação manipulando a oferta. Quando o crédito é fabricado do nada e injetado no sistema, o sinal de preço se contamina, o capital migra para o jogo financeiro e a economia produtiva míngua. A recompra é só o sintoma visível dessa doença monetária que ninguém quer diagnosticar.
No fim, o acionista compra a narrativa, a diretoria embolsa o bônus, o regulador olha para o teto, e a próxima rodada de capital alocado para nada está garantida. O capitalismo de verdade pune quem não sabe usar o dinheiro fazendo-o perder o dinheiro. O capitalismo de fachada, esse que se pratica nas bolsas modernas, premia o desperdício desde que ele venha acompanhado de uma boa apresentação em slides. Empresa que recompra ação não está confiando no próprio futuro, está pedindo desculpa pelo presente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.