O Estreito de Ormuz tem, em seu ponto mais estreito, pouco mais de trinta e três quilômetros de largura. Trinta e três quilômetros que separam, todos os dias, a economia global do caos. Por ali passam aproximadamente vinte por cento de todo o petróleo comercializado no mundo, dezessete milhões de barris por dia escoando silenciosamente entre Omã e o Irã, enquanto analistas bem pagos em Washington e Teerã produzem declarações que saem nos jornais e desestabilizam mercados. A Guarda Revolucionária iraniana, esse exército paralelo que responde a uma teocracia que ninguém elegeu e ninguém consegue demitir, anunciou que vai responder com firmeza a qualquer navio militar americano que tente cruzar o estreito. Os americanos, por sua vez, estão lá fazendo "desminagem", com a mesma cara de pau com que fazem tudo: a de quem veio ajudar.
Convém parar aqui e fazer a pergunta que nenhum repórter de grandes veículos faz, porque a resposta é constrangedora demais para caber numa cobertura patrocinada por empresa que precisa de licença do governo para operar. Quem colocou as minas? O Irã nega. Os americanos acusam. E a marinha americana está lá, em águas estratégicas do Golfo Pérsico, removendo minas ou, dependendo do ângulo que se escolhe para olhar, consolidando presença militar numa região que não é nem remotamente o quintal de ninguém em Washington. Grandes impérios têm essa virtude peculiar: chegam em qualquer lugar do mundo carregando o problema que justifica a solução que eles mesmos querem vender. Roma fazia isso, a Grã-Bretanha fazia isso com maestria vitoriana, e os Estados Unidos aprenderam o ofício com entusiasmo.
O que está em jogo aqui não é paz, não é segurança marítima, não é o direito internacional que todo mundo invoca quando convém e ignora quando atrapalha. O que está em jogo é quem controla o torneirão. Fechar Ormuz não é uma ameaça abstrata: é um torpedo direto no custo de vida de populações inteiras que nunca ouviram falar do estreito e que descobrirão sua existência quando o combustível dobrar de preço. O Estado iraniano sabe disso. O Estado americano sabe disso. E os dois usam essa ameaça mútua de destruição econômica como moeda de barganha em negociações que acontecem em salas que o cidadão médio jamais entrará. Enquanto isso, as companhias de seguros marítimos já estão revisando as apólices, e quem paga esse reajuste somos nós, ao fim da cadeia, no preço da gasolina e de tudo que precisa de gasolina para chegar até nós, que é praticamente tudo.
Há algo de profundamente obsceno na retórica de ambos os lados. O Irã fala em soberania e resistência ao imperialismo, palavras bonitas na boca de um regime que usa o dinheiro do petróleo para financiar milícias no Líbano, no Iêmen, no Iraque e em qualquer lugar onde possa projetar poder e comprar lealdade barata. Os Estados Unidos falam em liberdade de navegação e segurança regional, expressões igualmente nobres quando pronunciadas pelo país que tem mais bases militares no exterior do que qualquer outra nação da história humana, com uma diferença considerável para o segundo colocado. Nenhum dos dois está errado sobre o outro. Ambos estão corretos na acusação e absolutamente desonestos na autodefesa. É o padrão clássico da política de poder: cada um vê a palha no olho alheio com clareza cirúrgica e usa isso para justificar a trave no próprio.
A crise do Estreito de Ormuz nos ensina, mais uma vez, aquela lição que toda geração aprende e toda geração esquece: quando Estados brigam, civis pagam. Não os generais, não os aiatolás, não os secretários de Estado que passarão por essa crise, escreverão memórias e darão palestras bem remuneradas depois. Quem paga é o caminhoneiro no interior do Brasil que não entende por que o diesel voltou a subir, é o consumidor que não consegue mais fechar a conta do mês, é a pequena empresa que não consegue planejar nada porque o custo de tudo oscila ao sabor de declarações feitas em idiomas que ela não fala sobre lugares que ela nunca visitará. O estreito tem trinta e três quilômetros de largura, mas sua sombra cobre o mundo inteiro, e essa sombra é projetada por Estados que nunca pagam a conta do que quebram.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.