O Estreito de Ormuz tem, no ponto mais estreito, trinta e três quilômetros de largura. Por ali passa, todos os dias, algo entre dezessete e vinte por cento de todo o petróleo consumido no planeta. É um corredor tão estrategicamente absurdo que qualquer estudante de geopolítica aprende a respeitar no primeiro semestre, e qualquer homem de Estado aprende a nunca ameaçar bloquear, porque ameaçar bloquear é exatamente o tipo de gesto que, se executado, destrói quem bloqueia junto com quem é bloqueado. Trump mandou a Marinha. O Irã disse que não cede. E o mundo assiste, mais uma vez, à peça velha encenada com atores novos: dois estados soberanos disputando quem tem o pescoço mais duro enquanto o mercado financeiro global engole seco.

A lógica da situação é escandalosamente simples, e é exatamente por isso que os analistas de plantão se recusam a enxergá-la. As negociações fracassaram porque o Irã rejeitou as condições de Washington. Tudo bem. Negociações fracassam. Isso é o vocabulário normal da diplomacia desde que os sumérios mandavam emissários uns aos outros. O problema não é o fracasso da negociação. O problema é o que vem depois. Quando um estado resolve transformar uma rota marítima internacional, usada por dezenas de países que não têm nada a ver com a briga, em instrumento de pressão bilateral, ele deixou o território da política e entrou no território do sequestro coletivo. O Japão precisa daquele petróleo. A Coreia do Sul precisa daquele petróleo. A Índia precisa daquele petróleo. Nenhum deles votou nessa disputa, e todos vão pagar a conta.

Há um padrão histórico aqui que merece atenção. Sempre que uma potência dominante, convicta da própria superioridade militar, resolve usar o controle de rotas comerciais como alavanca de pressão política, o resultado raramente é o que ela imagina. Os britânicos fizeram isso no século dezenove com uma elegância imperial que pelo menos tinha a graça de ser consistente com uma doutrina coerente de livre-comércio, e mesmo assim criaram ressentimentos que duraram gerações. O bloqueio continental de Napoleão, montado para estrangular a Inglaterra economicamente, terminou estrangulando a França e a metade da Europa continental. A lição é sempre a mesma: instrumentalizar o comércio como arma produz danos colaterais que excedem, sistematicamente, os objetivos declarados. Não porque a guerra econômica seja impossível, mas porque a interdependência comercial é mais densa e mais frágil do que qualquer general consegue calcular num mapa.

O Irã, por sua vez, não é vítima nessa história. A retórica da soberania ferida que Teerã exporta para consumo doméstico e para os simpáticos da imprensa ocidental esconde um regime que há décadas usa o sofrimento do próprio povo como capital político internacional, que financia grupos armados em quatro países simultaneamente, e que mantém seu programa nuclear num estado de ambiguidade calculada precisamente para poder sentar à mesa de negociação com a postura de quem tem uma carta escondida na manga. Dizer que "não cede a ameaças" é a frase mais fácil do mundo quando quem diz controla o aparato coercitivo do estado e não vai ser o primeiro a morrer se a coisa escalar. A bravata do aiatolá é tão honesta quanto a da Casa Branca: nenhuma das duas pensa primeiro nos civis iranianos, nos caminhoneiros coreanos ou nos agricultores indianos que vão sentir o preço do diesel subir na próxima semana.

O que ninguém pergunta, porque perguntar seria inconveniente, é quem financia essa arquitetura toda. O programa nuclear iraniano custou quanto? Os porta-aviões americanos estacionados no Golfo custam quanto por dia? As sanções, os lobbies, as cadeias de suprimento desviadas, os contratos de armamento renegociados, os seguros marítimos que vão triplicar de preço esta semana: quem paga? O contribuinte americano paga o porta-aviões. O consumidor mundial paga o petróleo mais caro. O povo iraniano paga as sanções com o próprio estômago. E os estados, os dois estados envolvidos nessa dança, continuam de pé, financiados, armados e com porta-vozes bem pagos explicando por que a culpa é sempre do outro. O Estado é a única instituição humana que, quanto mais falha, mais orçamento recebe, e guerras e crises são o seu produto eleitoral mais rentável.

O desfecho mais provável, porque é o mais cômodo para todos os envolvidos no poder, é que alguma negociação de bastidor aconteça antes que os primeiros navios sejam interceptados, algum acordo seja anunciado como vitória diplomática por ambos os lados, e a memória coletiva seja suficientemente curta para esquecer que essa farsa já foi encenada em 1980, em 1988, em 2019 e agora de novo. O Estreito de Ormuz vai continuar aberto porque fecha o mundo junto. Mas o custo de manter dois impérios em colapso de ego custoso vai continuar sendo cobrado de quem não tem exército nem porta-voz, ou seja, de todo mundo.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.