O Estreito de Ormuz tem menos de cinquenta quilômetros de largura no ponto mais estreito, uma faixa de mar que não merecia atenção de ninguém se não fosse pelo fato de que por ali passa quase um quinto de todo o petróleo que move o planeta. É exatamente esse detalhe, simples e brutal, que transforma a fanfarronice diplomática dos aiatolás e a retórica musculosa de Washington em algo mais sério do que parece: quando dois Estados decidem transformar uma via marítima em campo de xadrez geopolítico, as primeiras peças que caem do tabuleiro não são generais, são preços.

O regime iraniano, neste domingo, subiu o tom com a elegância característica de quem já não tem muito a perder, declarando que qualquer navio militar que se aproxime da região será tratado como violação do cessar-fogo e encontrará resposta imediata. Traduzindo do diplomatês: "nossa sobrevivência institucional depende de continuar parecendo perigosos". Há aqui uma contradição que qualquer estudante de lógica identificaria sem esforço, o mesmo regime que invoca um cessar-fogo como escudo jurídico é o que usa a ameaça de guerra como instrumento de negociação. Ou o cessar-fogo é válido e a ameaça é blefe, ou a ameaça é real e o cessar-fogo não vale o papel em que foi assinado. Não existe terceira opção.

Trump, do outro lado, age com a coerência de quem aprendeu com décadas de política externa americana que o Estado não precisa de resultados, precisa de narrativa. Bloquear o Estreito de Ormuz seria um ato de força extraordinária com consequências extraordinariamente imprevisíveis, justamente o tipo de intervenção que, ao longo da história, produziu resultados opostos aos anunciados. O bloqueio britânico de Napoleão empobreceu a Europa antes de enfraquecer a França. O embargo americano ao Japão nos anos 1940 não produziu recuo, produziu Pearl Harbor. O Estado tem essa qualidade singular de aprender muito pouco com o passado, especialmente quando o passado não lhe custou nada diretamente, e sim ao contribuinte que pagou a conta.

Porque é aí que mora o escândalo mais silencioso desta história inteira. Enquanto almirantes dos dois lados movem frotas financiadas por impostos, enquanto assessores de segurança nacional ganham salários gordos para elaborar cenários de conflito, e enquanto o barril de petróleo começa a dançar nos mercados futuros ao menor soluço de Teerã, quem arca com os custos reais desta encenação é o motorista de caminhão no interior do Ceará, o pescador em Portugal, o operário em Bangladesh que paga mais pelo combustível sem entender por que dois governos do outro lado do mundo decidiram que aquele pedaço de mar era o lugar certo para medir o tamanho do ego. O Estado nunca arca com as consequências das suas aventuras. Quem arca é quem não tem exército, não tem porta-voz e não tem linha direta com o secretário de Estado.

Há um padrão velho como a civilização nessa dança. Impérios em declínio, ou regimes em crise interna, tendem a externalizar o conflito, transformar a atenção do povo para longe dos problemas domésticos e projetar força onde podem, porque onde deveriam, já não conseguem mais. O Irã enfrenta inflação destruidora, descontentamento popular represado a força e uma economia esgarçada por décadas de má gestão clerical. Os Estados Unidos enfrentam uma dívida pública que já passou da categoria de problema para a categoria de condição permanente, e um eleitorado cada vez mais cansado de pagar por presença militar em todos os cantos do globo. Dois Estados com problemas domésticos sérios, duas classes políticas que precisam de inimigo externo para justificar sua existência. O Estreito de Ormuz, nesse contexto, não é um problema geopolítico, é uma válvula de escape.

O que deveria preocupar a imprensa séria, e raramente preocupa, não é o ultimato iraniano nem o anúncio de Trump. É a velocidade com que o mundo aceita que dois aparatos estatais possam, por puro cálculo de poder, colocar em risco o abastecimento energético de bilhões de pessoas que nunca foram consultadas, nunca votaram nessa guerra e nunca verão um centavo das negociações que virão depois. O Estreito de Ormuz pertence ao comércio humano, não a nenhum Estado, e cada vez que um desses colossos burocráticos o usa como ficha de pôquer, é mais uma prova de que o problema não é quem controla o estreito, é quem controla os controladores.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.