No domingo, 12 de abril, a mídia estatal iraniana divulgou imagens de Forças Especiais Navais posicionadas ao longo da costa sul do país. Militares na beira do mar, olhando para o horizonte, esperando. A narrativa ocidental vai processar essa informação como "provocação" ou "demonstração de força agressiva", que é exatamente o tipo de inversão lógica que só funciona quando o público já foi domesticado o suficiente para não perguntar: agressiva em relação a quê, exatamente? O Irã está na costa sul do Irã. Os Estados Unidos estão do outro lado do planeta. Quem mobilizou tropas em direção a quem é uma pergunta que a maioria dos editoriais vai se recusar a formular com honestidade.

Existe uma lógica perversa e muito antiga no comportamento dos grandes impérios: eles precisam do inimigo com uma urgência que beira o afeto. Sem o inimigo externo, o aparato militar perde sua justificativa orçamentária, os contratos de defesa murcham, os generais viram burocratas sem medalhas novas para ganhar, e os senadores que recebem doações das indústrias bélicas precisam explicar para seus eleitores por que votaram em gastos estratosféricos com submarinos que nunca disparam. Roma não sabia o que fazer consigo mesma nos raros momentos em que não tinha um Cartago para destruir. A Grã-Bretanha vitoriana inventou crises coloniais com a criatividade de um roteirista de folhetim. O padrão não é novo; só os atores mudam.

Siga o dinheiro, porque o dinheiro não mente nem quando os diplomatas mentem. Cada ciclo de escalada com o Irã, seja ele real, encenado ou amplificado pela cobertura midiática, gera uma onda previsível de valorização nas bolsas de determinados setores. Fabricantes de mísseis, empresas de cibersegurança com contratos governamentais, fornecedores de logística militar, consultorias estratégicas que vendem "análise de risco geopolítico" para governos e corporações. O Estado de guerra permanente não é uma falha do sistema; é o produto. E como todo produto, ele precisa de demanda, e a demanda se cria com notícias de mobilização militar, com imagens de soldados posicionados em costas, com declarações de porta-vozes que soam graves o suficiente para gerar manchetes sem precisar de fatos novos.

A contradição central desse episódio tem a estrutura de uma piada que ninguém ri porque todos estão com medo de ser o próximo na fila. Uma potência com mais de 700 bases militares espalhadas pelo globo, com frotas de porta-aviões que custam mais do que o PIB de países inteiros, com um orçamento de defesa que envergonha todas as outras nações somadas, essa potência insinua a possibilidade de invasão por terra de um país a mais de dez mil quilômetros de distância das suas fronteiras, e o país que vai ser invadido é o que aparece nos noticiários como "ameaça". A lógica desse argumento seria reprovada num debate de ensino médio. Mas passa nos jornais como análise séria porque ninguém nos exige coerência quando o assunto é o inimigo oficial da temporada.

O Irã é um regime autoritário com um histórico que não merece romantização. Isso não está em disputa. Mas a questão moral relevante não é se o regime de Teerã é simpático; é se o governo americano tem alguma autoridade moral ou legal para ameaçar a integridade territorial de outro Estado soberano, mobilizando o aparato de guerra mais caro da história humana, enquanto exige que o mundo inteiro chame isso de "defesa da ordem internacional". A ordem que está sendo defendida aqui é a ordem que convém a quem tem poder suficiente para definir o que é ordem. O resto é retórica de sacristia imperial, e sempre foi.

O que o soldado iraniano parado na beira do mar representa, no fim das contas, é a imagem mais honesta desse confronto: alguém olhando para o horizonte esperando um inimigo que talvez nunca chegue, mas cuja simples possibilidade já cumpriu sua função, que é gastar dinheiro público, agitar eleitorados, renovar contratos, e manter a roda do medo girando em velocidade suficiente para que ninguém pare para perguntar por que ela existe.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.