Poucos se lembram, mas houve um tempo em que o Irã era o segundo país muçulmano a reconhecer Israel, em 1950, e o petróleo iraniano abastecia refinarias israelenses enquanto aviões da El Al pousavam tranquilamente em Teerã. O xá Reza Pahlavi, instalado no trono por um golpe orquestrado por Londres e Washington em 1953 contra um primeiro-ministro que ousou nacionalizar o petróleo, transformou o Irã no xerife regional do Ocidente. Comprava caças F-14 americanos, treinava oficiais com generais israelenses e deixava o Mossad operar à vontade contra inimigos árabes comuns. O oleoduto Eilat-Ashkelon, projeto secreto construído em 1968, carregava cru persa pelo deserto do Neguev enquanto as Nações Unidas fingiam que aquilo não existia. Era um casamento de conveniência regado a dólares do contribuinte americano e sangue curdo, palestino e árabe, a depender da semana.
A revolução de 1979 derrubou o xá, mas não enterrou o negócio. No escândalo Irã-Contras, entre 1985 e 1986, Washington vendia mísseis TOW e Hawk para os aiatolás através de intermediários israelenses, desviando o lucro para financiar esquadrões da morte na Nicarágua. O Congresso havia proibido a operação, mas a Casa Branca simplesmente terceirizou o crime. Ninguém foi preso de verdade, os indultos vieram depois, e o complexo industrial da guerra faturou alto vendendo para os dois lados do Golfo, já que Saddam Hussein, então aliado americano, recebia componentes para suas armas químicas que usaria contra esses mesmos iranianos. Quem assinou esses contratos enriqueceu. Quem morreu em Fao e Basra virou estatística.
A inimizade formal começa a ser construída quando o Irã deixa de ser útil e passa a ser concorrente. Petróleo denominado em euros, projetos de gasodutos para a Ásia sem passar pelas bolsas ocidentais, apoio ao Hezbollah no Líbano, relações com Moscou e Pequim. A partir daí, o roteiro é clássico: sanções econômicas que estrangulam o remédio do hospital e o trigo da padaria, bloqueios financeiros que impedem até transplantes de medula, assassinatos seletivos de cientistas em motocicletas teleguiadas, e a eterna ameaça de que o programa nuclear iraniano está a seis meses da bomba, previsão repetida anualmente desde 1992. Trinta e três anos de seis meses. Há algo de mágico nesse calendário.
Agora chegamos a 28 de fevereiro, data em que a guerra aberta substituiu a guerra encoberta. Os cofres da Lockheed, Raytheon, Boeing e Elbit agradecem. Cada Tomahawk custa cerca de dois milhões de dólares, cada interceptador do Domo de Ferro passa de cinquenta mil, e cada F-35 abatido ou avariado abre espaço para encomendas novas. O contribuinte americano, que não consegue custear o próprio plano de saúde, financia a reposição dos estoques. O contribuinte israelense, que viu o custo de vida explodir, paga a mobilização de reservistas. O cidadão iraniano, já esmagado por décadas de sanções que enriqueceram os mulás contrabandistas e empobreceram o comerciante do bazar, agora vê hospitais bombardeados. Em toda guerra longa, quem manda nunca está na linha de frente, e quem está na linha de frente nunca decidiu nada.
A narrativa oficial fala em democracia, direitos humanos, ameaça existencial. A realidade fala em rotas de petróleo, controle do estreito de Ormuz por onde passa um quinto do cru mundial, contratos de reconstrução já sendo loteados em escritórios de Washington e Londres, e um dólar que precisa desesperadamente de inimigos para justificar sua impressão infinita. Cada míssil disparado é uma transferência de renda do assalariado para o acionista. Cada cidade destruída é um contrato futuro. Cada refugiado é uma estatística que financia ONGs que financiam campanhas que elegem os mesmos políticos que votam os próximos pacotes de guerra. O círculo é perfeito, e só se fecha porque o sangue é sempre dos outros.
Amigos em 1960, inimigos em 2026, o Irã e Israel provam que na geopolítica não existem afetos, existem contratos. E quando os contratos mudam, mudam também os discursos, as bandeiras e os cadáveres que servirão de pretexto. O trabalhador de Isfahan que perdeu o filho e o trabalhador de Haifa que perdeu a casa jamais se encontrarão, mas ambos pagaram pelo mesmo jantar na mesma mesa de diretoria. A guerra é sempre um imposto, e o sangue é a moeda com que o povo quita o que os reis gastaram.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.