Três trocas de fogo em sete dias no mesmo corredor marítimo, e o mercado finge surpresa enquanto o barril sobe obedientemente. O Estreito de Hormuz tem trinta e nove quilômetros de largura no ponto mais apertado, e por essa garganta passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Cada explosão registrada ali se traduz, em questão de horas, em centavos a mais no posto de combustível de qualquer trabalhador brasileiro, americano ou alemão que jamais ouviu falar de Bandar Abbas. O cidadão paga a conta de uma guerra que não escolheu, travada por governos que não o consultaram, em nome de interesses que jamais lhe foram apresentados.

Convém olhar quem ganha. As ações das fabricantes de mísseis americanas operam em máximas históricas desde que o primeiro drone iraniano sobrevoou a região no ano passado. Lockheed Martin, Raytheon, Northrop Grumman e General Dynamics formam um cartel que não precisa de marketing, basta um comunicado do Pentágono para que os papéis subam. Do outro lado, o regime de Teerã usa cada ataque para justificar o aperto interno, prender dissidentes e desviar a fúria popular contra o desemprego e a inflação para o inimigo externo conveniente. Há décadas que os aiatolás e os falcões de Washington trabalham, na prática, para o mesmo objetivo, ainda que se odeiem retoricamente, a manutenção da tensão que sustenta orçamentos militares dos dois lados.

A narrativa oficial fala em dissuasão, segurança da navegação, defesa de aliados. Tradução honesta, a Quinta Frota americana precisa de pretexto orçamentário, o complexo petrolífero saudita precisa de prêmio de risco embutido no barril, e o regime iraniano precisa de cerco externo para legitimar a cleptocracia clerical que sufoca trinta milhões de jovens persas sem futuro. Sanções que supostamente punem o governo na verdade matam o comerciante de Isfahan que não consegue importar remédio para o filho. Bloqueios que supostamente forçam negociação na verdade engordam contrabandistas com conexões nos dois lados da fronteira. É sempre assim, foi assim em Cuba por sessenta anos, foi assim no Iraque dos anos noventa quando meio milhão de crianças morreram para que o tirano continuasse vivo.

A história do golfo é uma sequência ininterrupta de potências externas inventando motivos para ficar. Os britânicos chegaram protegendo a rota das Índias, ficaram pelo petróleo, saíram quebrados em 1971. Os americanos chegaram contendo soviéticos, ficaram pelo petróleo, e agora inventam o Irã como ameaça existencial para justificar bases que custam ao contribuinte americano mais de cem bilhões de dólares por ano. Curioso como a ameaça nunca é grande o bastante para ser resolvida, nem pequena o bastante para ser ignorada. Ela precisa permanecer exatamente do tamanho do próximo pedido de verba suplementar ao Congresso.

Enquanto isso, o marinheiro filipino do petroleiro grego com bandeira liberiana e carga emirática reza para não virar manchete. O motorista de aplicativo em São Paulo paga mais caro o litro sem entender por quê. O aposentado europeu vê a conta de gás dobrar e culpa o vizinho. Nenhum deles declarou guerra a ninguém, nenhum deles foi consultado sobre nada, e todos eles financiam, via imposto e via inflação, o teatro de mísseis que enche os bolsos de acionistas que jamais pisarão num campo de batalha. A guerra moderna é o programa de transferência de renda mais eficiente já inventado, do bolso do trabalhador para o cofre do contratante de defesa, com pedágio para o burocrata no caminho.

O estreito continuará fechando e abrindo conforme a conveniência das próximas pesquisas eleitorais americanas e das próximas safras de jovens iranianos prontos para morrer por uma teocracia que despreza suas vidas. Haverá novas rodadas de indignação seletiva, novas resoluções inúteis da ONU, novos pacotes de sanções que punem padarias e poupam palácios. E ao final de cada ciclo, alguém vai contar os mortos do lado errado e os lucros do lado certo, e descobrir, mais uma vez, que são exatamente as mesmas pessoas de sempre. A geografia muda, o figurino muda, o roteiro nunca.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.