O regime iraniano teria colocado na mesa uma proposta envolvendo o Estreito de Ormuz, aquele corredor estreito por onde escoa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta, e Washington responde com a habitual mistura de sanções renovadas, ameaças veladas e diplomacia de bastidores. As conversas estagnaram, dizem as agências, com o ar grave de quem descobre uma novidade. Não há novidade. Há quarenta e cinco anos o mesmo teatro se repete, com elenco rotativo e roteiristas idênticos, sempre no momento exato em que o preço do barril precisa de um empurrãozinho para cima.

Convém olhar para o gráfico antes de olhar para o discurso. Cada vez que um almirante americano menciona Ormuz, ações de empresas de defesa sobem, contratos futuros de petróleo disparam, fundos de hedge posicionados em volatilidade abrem champanhe. O complexo de armas vendidas aos sauditas, aos emiradenses, aos israelenses, aos catarianos, todos comprando o mesmo material para se proteger uns dos outros, gira centenas de bilhões de dólares por ano. A conta dessa orquestra não é paga pelos generais nem pelos diplomatas. É paga pelo motorista de aplicativo em São Paulo que abastece o carro mais caro porque um aiatola tossiu em Teerã.

A narrativa oficial fala em segurança da navegação, liberdade dos mares, contenção de regime hostil. A história diz outra coisa. O xá do Irã foi instalado por um golpe orquestrado por agências ocidentais em 1953 justamente porque ousou nacionalizar o petróleo. A revolução de 1979 foi a fatura desse golpe chegando com juros compostos. As sanções subsequentes, mantidas com religiosa devoção por governos democratas e republicanos, nunca derrubaram o regime; apenas empobreceram o comerciante de Isfahan, o engenheiro de Tabriz, a dona de casa de Shiraz. Sanção econômica é bloqueio naval sem navio, é cerco medieval com planilha de Excel, é política de fome com selo da ONU.

O cinismo do arranjo atual é digno de registro em mármore. Os Estados Unidos negociam com o Irã enquanto financiam quem bombardeia o Iêmen, onde milícias apoiadas por Teerã afundam navios no Mar Vermelho, encarecendo o frete global e justificando mais orçamento militar para proteger as rotas que o próprio orçamento militar tornou perigosas. É o esquema perfeito: cria-se o problema, vende-se a solução, cobra-se do contribuinte a fatura, e quando o público reclama, aponta-se o dedo para o vilão de plantão. Em Washington há um ditado oficioso entre lobistas: a paz é ruim para os negócios.

Os mercados, que nunca dormem e raramente se enganam sobre onde está o dinheiro, já precificam três cenários. Acordo parcial, com alívio gradual de sanções e retorno do petróleo iraniano em volume controlado, beneficiando refinarias asiáticas e quebrando margens de produtores americanos de xisto. Estagnação prolongada, com tensão calibrada para manter o barril acima dos noventa dólares, cenário ideal para os herdeiros da Standard Oil rebatizados como ExxonMobil e Chevron. Ou ruptura, fechamento de Ormuz, barril a duzentos, recessão global, e a comprovação de que a única coisa mais cara que a guerra é a paz negociada por quem ganha com a guerra.

No fim, o Estreito de Ormuz é uma metáfora perfeita do mundo que construíram para nós. Uma passagem estreita, vigiada por canhões de várias bandeiras, onde o sangue do trabalhador comum escorre transformado em combustível, dividendo e bônus de fim de ano. O persa pobre e o americano pobre nunca se encontraram, nunca brigaram, nunca tiveram motivo para se odiar. Mas estão ambos pagando, em moedas diferentes, pela mesma fatura assinada em escritórios climatizados que nenhum dos dois jamais pisará. A diplomacia, disse alguém uma vez, é a arte de adiar o inevitável até que se possa cobrar a entrada.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.