O YouTube, esse templo da liberdade de expressão que bane o que incomoda e monetiza o que convém, decidiu remover os vídeos de um grupo pró-iraniano que produzia animações em estilo Lego com inteligência artificial. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã acusou a plataforma de querer "suprimir a verdade sobre a guerra ilegal contra o Irã". A frase é bombástica, carregada de retórica estatal, e convenientemente ignora que o próprio regime iraniano é um dos maiores censores digitais do planeta. Mas o fato de um governo autoritário dizer uma verdade parcial não torna a verdade menos verdadeira. O YouTube, subsidiária da Alphabet, uma corporação que fatura dezenas de bilhões por ano com publicidade e mantém contratos milionários com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, não é um árbitro neutro da informação. É um braço do aparato de poder que decide qual guerra merece cobertura simpática e qual merece silêncio.
A ironia é tão espessa que se poderia cortá-la com faca. O mesmo YouTube que hospeda sem pestanejar documentários laudatórios sobre operações militares americanas, que permite a transmissão ao vivo de briefings do Pentágono sem nenhum selo de "contexto", que nunca removeu um único vídeo de think tanks financiados pela indústria bélica pedindo mais sanções, mais bombardeios, mais "pressão máxima", esse mesmo YouTube descobre escrúpulos editoriais quando animações em estilo brinquedo mostram o outro lado do conflito. Não se trata de defender o conteúdo iraniano, que certamente carrega sua própria carga de propaganda estatal. Trata-se de observar o óbvio: a censura nunca é aplicada de forma simétrica. Ela sempre protege o lado que paga a conta do servidor.
E a conta é gorda. A Alphabet mantém contratos com agências de inteligência e com o aparato militar americano que raramente aparecem nas manchetes. O projeto Maven, o Google Cloud para operações governamentais, as parcerias com a comunidade de defesa que geraram protestos internos em 2018 e depois foram silenciosamente ampliadas quando os holofotes se apagaram. Quando uma plataforma que vive dessa simbiose com o poder estatal decide o que é propaganda e o que é informação legítima, o resultado é previsível como a chuva depois do trovão. A propaganda do aliado é "conteúdo informativo". A propaganda do inimigo é "violação dos termos de serviço". Os termos de serviço, aliás, são o equivalente digital dos tratados internacionais: escritos por quem tem poder, aplicados contra quem não tem, e modificados sempre que convém.
O Irã, por sua vez, faz o papel que lhe cabe neste teatro. Reclama de censura externa enquanto bloqueia o acesso de seus próprios cidadãos à internet aberta. Prende jornalistas, silencia dissidentes, filtra redes sociais, e depois tem a audácia de invocar a liberdade de expressão quando a censura atinge seus próprios canais de propaganda. É o mesmo roteiro que se repete desde que governos descobriram que a hipocrisia, quando bem articulada, funciona como ferramenta diplomática. Mas a hipocrisia do Irã não absolve a hipocrisia do Vale do Silício. São dois poderes disputando o monopólio da narrativa, e nenhum dos dois tem o menor interesse na verdade. O que ambos querem é controle.
O cidadão comum, esse personagem que nunca é consultado nas decisões que definem sua realidade informacional, fica espremido entre duas máquinas de propaganda. De um lado, o aparato midiático ocidental que transforma toda ação militar americana em "operação cirúrgica" e todo civil morto em "dano colateral". Do outro, a máquina estatal iraniana que transforma seu regime teocrático em vítima perpétua do imperialismo. A verdade, como sempre, é a primeira baixa. E o mais revelador nessa história não é o conteúdo dos vídeos removidos, que provavelmente eram propaganda rudimentar com estética infantil. O revelador é que uma corporação privada, sem mandato democrático, sem transparência, sem recurso judicial efetivo, decide unilateralmente o que 2,7 bilhões de usuários podem ou não ver sobre um conflito que pode redesenhar o mapa do Oriente Médio. O nome antigo disso era censura estatal. O nome novo é "moderação de conteúdo". A diferença é só o logotipo.
Enquanto analistas de política externa debatem se o Irã representa uma ameaça existencial ou um inimigo conveniente, enquanto lobistas da indústria de defesa circulam pelos corredores do Congresso americano com cheques generosos e relatórios alarmistas, enquanto contratos de fornecimento de armas são assinados com a tinta ainda fresca das últimas sanções, o verdadeiro conflito acontece onde ninguém está olhando: na infraestrutura invisível que decide quais histórias merecem existir. A guerra do século XXI não começa com mísseis. Começa com um algoritmo que decide o que você não vai ver.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.