Existe uma ironia cruel e poética no fato de que décadas de sanções, bloqueios econômicos e pressão máxima produziram exatamente o resultado que deveriam impedir: o Irã transformou o Estreito de Hormuz, a garganta por onde respira boa parte da economia global, numa fonte de receita soberana. O chefe de segurança iraniano foi categórico ao declarar à imprensa que o estreito não voltará ao status de passagem gratuita após o colapso das negociações com os americanos. Traduzindo para o idioma que Wall Street entende: o combustível que move sua economia vai custar mais caro, e quem vai receber o troco é justamente o governo que vocês passaram quarenta anos tentando estrangular.

A geometria do poder sobre chokepoints marítimos é uma das mais antigas e brutais da história humana. Quem controla o estreito controla o fluxo, e quem controla o fluxo dita termos. Os venezianos enriqueceram por séculos fazendo exatamente isso no Mediterrâneo. Os otomanos fizeram o mesmo no Bósforo. Os britânicos construíram um império inteiro ao redor do controle de passagens estratégicas, de Gibraltar a Cingapura. A diferença é que, quando potências ocidentais cobram pedágio sobre o comércio alheio, chamam de proteção de rotas marítimas internacionais. Quando o Irã faz o mesmo, é agressão. O cinismo aqui não é nem sofisticado: é industrial.

Siga o dinheiro, como sempre. A cada dólar de sobretaxa cobrada sobre um navio saudita, emiradense ou de bandeira americana, o tesouro iraniano recebe uma injeção de liquidez que nenhum acordo nuclear teria garantido tão rapidamente. As sanções ocidentais, concebidas para secar as finanças de Teerã, acabaram de criar um instrumento de arrecadação compulsória sobre o comércio global de hidrocarbonetos. Os estrategistas que elaboraram essa política foram, provavelmente, muito bem pagos. O contribuinte americano, que financiou quarenta anos de pressão diplomática, militar e econômica sobre o Irã, vai agora pagar novamente na bomba de gasolina. O Estado produz o problema, o cidadão arca com a solução, e o ciclo recomeça.

Do outro lado dessa equação estão os armadores, as seguradoras marítimas de Londres e de Hamburgo, as refinarias asiáticas que dependem do petróleo do Golfo Pérsico e os consumidores finais em cada ponto do planeta conectado a essa cadeia. Uma sobretaxa sobre o trânsito em Hormuz não é uma disputa abstrata entre chanceleres: é pressão sobre o preço do diesel que o caminhoneiro brasileiro paga, sobre o custo do plástico que envolve o alimento que você comprou ontem. Sanções são apresentadas como instrumentos de precisão cirúrgica contra regimes. Na prática, funcionam como bombas de fragmentação: matam a economia do alvo, mas os estilhaços alcançam todos os outros.

O fracasso das negociações entre Washington e Teerã não é um incidente diplomático isolado. É o resultado previsível de uma abordagem que confunde pressão máxima com estratégia. Quando o único instrumento que um governo conhece é o aperto, não deve surpreender que o espremido encontre suas próprias válvulas de escape. O Irã não está inovando: está fazendo o que qualquer ator racional faz quando encurralado, que é encontrar alavancas onde o adversário mais dói. E Hormuz dói muito. Aproximadamente vinte por cento do petróleo mundial e trinta e cinco por cento do GNL comercializado globalmente passam por aquelas águas. Isso não é um corredor marítimo. É um gatilho.

Há uma lição que os impérios repetem ad nauseam sem nunca aprender: cercar um Estado pequeno economicamente não o enfraquece até a submissão, o fortalece até a brutalidade. Cuba sobreviveu sessenta anos de embargo. A Coreia do Norte construiu ogivas nucleares sob bloqueio. O Irã, com um histórico de civilização de três mil anos e a memória viva da invasão iraquiana financiada pelo Ocidente, não vai dobrar os joelhos porque alguém em Washington assinou um decreto. Vai encontrar a cancela mais dolorosa disponível e vai instalá-la. A conta chegará primeiro aos tanques de combustível europeus, depois às bolsas de valores asiáticas, e por último, como sempre, ao trabalhador comum que não votou em nenhuma dessas decisões, não entendeu nenhum desses cálculos e vai pagar tudo.

Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.