Quarenta e oito dias. É o tempo que leva para um conflito sair das manchetes e virar paisagem, para o público ocidental trocar a indignação pelo tédio e para os verdadeiros beneficiários da guerra operarem sem holofotes. Os Estados Unidos e o Irã agora "negociam" sob mediação do Paquistão, e os jornais falam em "otimismo" para uma nova rodada de conversas em Islamabad. Otimismo. A palavra preferida da diplomacia quando não há nada concreto para mostrar, quando o objetivo real não é encerrar o conflito, mas administrá-lo na velocidade certa, nem rápido demais para acabar com os contratos, nem devagar demais para perder o apoio do Congresso.

Siga o dinheiro e o teatro diplomático se dissolve. Cada semana de operação militar no Golfo Pérsico custa ao contribuinte americano cifras que nenhum canal de televisão ousa estampar na tela com a mesma frequência com que exibe mapas de ataques aéreos. Os porta-aviões não navegam movidos a patriotismo; navegam movidos a contratos bilionários de manutenção, combustível e munição que fluem diretamente dos cofres do Tesouro para os balanços trimestrais de meia dúzia de corporações cujos lobistas circulam pelo Capitólio com a mesma naturalidade com que senadores circulam por seus conselhos de administração. O Pentágono não precisa vencer guerras, precisa justificá-las. E um processo de paz que se arrasta indefinidamente é a justificativa perfeita para manter o orçamento de defesa inflado, as bases avançadas operacionais e os pedidos de reposição de mísseis Tomahawk em dia. A guerra é o programa de transferência de renda mais eficiente já inventado: do bolso de quem trabalha para o dividendo de quem fabrica a morte.

O Paquistão como mediador é, por si só, uma ironia que merece ser saboreada. Islamabad, que durante décadas serviu de corredor logístico para operações americanas no Afeganistão, que abrigou Bin Laden a quilômetros de sua academia militar, que recebe bilhões em "ajuda" condicionada à obediência geopolítica, agora se apresenta como árbitro neutro entre Washington e Teerã. Neutralidade paquistanesa é um conceito tão sólido quanto promessa eleitoral. O Paquistão media porque mediar lhe dá relevância, lhe dá moeda de troca com os chineses, lhe dá alavanca para renegociar os termos de sua própria submissão ao dólar. Ninguém senta à mesa de negociação por altruísmo. Cada cadeira tem um preço, e cada preço tem um contrato anexo que nenhuma coletiva de imprensa vai mencionar.

Enquanto diplomatas trocam apertos de mão diante das câmeras em Islamabad, o cidadão iraniano comum vive sob o peso combinado de bombas e sanções, essa arma econômica que o Ocidente insiste em chamar de "pressão diplomática" como se a fome fosse um instrumento legítimo de política externa. Sanções não derrubam regimes; regimes se alimentam de sanções. Os aiatolás usam o bloqueio econômico como narrativa de resistência, consolidam poder interno, e quem paga o preço é o comerciante de Teerã que não consegue importar insulina, é a família de Isfahan que viu sua poupança evaporar junto com o rial. Do outro lado, o soldado americano de vinte e poucos anos, recrutado em alguma cidade desindustrializada do Meio-Oeste onde a única empregadora que restou foi o próprio Exército, serve de carne de canhão para uma disputa entre elites que jamais pisarão num campo de batalha. O Estado manda, o cidadão sangra, e a distância entre quem declara a guerra e quem morre nela nunca foi tão obscenamente larga.

A história se repete com a precisão de um relógio suíço fabricado com dinheiro de sangue. Assim como as "negociações" com o Vietnã se arrastaram por anos enquanto a Dow Chemical faturava com napalm, assim como os "acordos de paz" no Iraque coincidiam misteriosamente com a redistribuição de concessões petrolíferas, este processo em Islamabad vai durar exatamente o tempo necessário para que todos os envolvidos extraiam o máximo de lucro e influência possível. O acordo final, se vier, virá quando o custo político de manter a guerra superar o lucro de sustentá-la, e nem um dia antes. Enquanto isso, o "otimismo" dos jornalistas serve de anestesia para uma opinião pública que já esqueceu por que a guerra começou, mas ainda não percebeu quem está pagando a conta. E quando perceber, vai ser tarde demais, porque a conta já terá sido paga, os contratos já terão sido assinados, e o próximo conflito já estará sendo planejado em algum escritório climatizado de Washington onde a palavra "paz" só aparece em relatórios de relações públicas.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.