A contabilidade da estupidez bélica raramente é tão precisa quanto agora. Bloomberg confirmou que até trinta drones MQ-9 Reaper, cada um custando algo na casa dos trinta e dois milhões de dólares, viraram poeira radioativa sobre o solo iraniano desde o início das hostilidades. Um quinto da frota inteira dessa máquina celebrada como o estado da arte da guerra remota foi reduzido a fragmentos por um país que, segundo a narrativa oficial repetida há quatro décadas, estaria à beira do colapso econômico, tecnologicamente atrasado e isolado do mundo. Curioso como o suposto cadáver geopolítico continua derrubando aeronaves de ponta com sistemas antiaéreos que custam frações do alvo.

A matemática dessa farra merece ser dissecada com calma. Cada Reaper abatido representa aproximadamente o orçamento anual de uma cidade americana de porte médio, o tipo de lugar onde a escola pública não tem giz e a estrada estadual está esburacada há três administrações. Multiplique por trinta e você tem o equivalente ao PIB de pequenas nações inteiras vaporizado em missões cuja finalidade estratégica nunca foi adequadamente explicada ao pagador de impostos que financiou a brincadeira. E a beleza do esquema, para quem está do lado certo do balcão, é que cada drone perdido vira automaticamente um pedido de reposição. O acionista do General Atomics dorme tranquilo. O contribuinte do Kansas, nem tanto.

Há uma simetria histórica deliciosa nessa derrota silenciosa. Toda potência imperial em declínio passa pelo mesmo ritual: continua investindo em brinquedos cada vez mais caros e sofisticados enquanto adversários considerados inferiores aprendem a derrubá-los com soluções engenhosas e baratas. Os romanos tardios cobriam seus legionários de armaduras refinadas enquanto godos com táticas rudimentares dizimavam legiões. Os britânicos lançaram dreadnoughts colossais que o submarino alemão, custando uma fração do preço, mandava para o fundo do Atlântico. Agora, um drone de trinta e dois milhões é abatido por um míssil que custa menos que um apartamento em Teerã. A história não se repete, mas rima com uma musicalidade cruel.

A narrativa oficial vai cuidar de embalar o desastre em papel celofane patriótico. Falarão em sacrifícios necessários, em manutenção da ordem regional, em compromissos com aliados, em ameaças existenciais que justificam qualquer despesa. Não mencionarão que o complexo industrial bélico americano opera há décadas como o maior programa de transferência de renda jamais concebido, sugando recursos do trabalhador comum para depositá-los nas contas dos cinco grandes empreiteiros de defesa. Não mencionarão que cada guerra perdida é, na realidade, uma vitória contábil para quem fornece a munição. E definitivamente não mencionarão que a única função estratégica desses drones, na prática, foi gerar contratos de reposição.

Enquanto isso, no chão, do lado iraniano, o cidadão comum que nunca pediu para ser peça desse tabuleiro continua sofrendo as sanções que destruíram sua moeda, encareceram o pão e mataram doentes que não conseguem importar remédios. Do lado americano, o veterano que pilotou remotamente essas máquinas a partir de uma base no Nevada volta para casa com transtorno de estresse pós-traumático para descobrir que o sistema de saúde dos veteranos tem fila de oito meses. Os dois pagam. Os dois sangram. O acionista, esse, recebe dividendos trimestrais pontuais.

Trinta drones no chão é a manchete. A manchete real, aquela que ninguém vai imprimir, é que o império mais armado da história continua perdendo guerras assimétricas contra adversários considerados atrasados, e cada derrota é celebrada como oportunidade comercial nos escritórios da Virginia. A guerra eterna não é um efeito colateral indesejado da política externa. É o produto. É exatamente o que se está vendendo. E o cliente cativo, aquele que paga sem nunca poder cancelar a assinatura, atende pelo nome de você.

Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.