Duas atletas da seleção iraniana feminina desembarcaram na Austrália para a Copa da Ásia e decidiram não voltar. Pediram asilo, receberam proteção, agradeceram publicamente ao governo de Camberra e disseram querer reconstruir a vida em segurança. A cena é comovente, a fotografia é impecável, o gancho humanitário é irresistível. Convenientemente, nenhum jornalista ocidental perguntou por que o mesmo Ocidente que abre os braços para duas jogadoras mantém relações comerciais intactas com o regime que as obrigava a jogar de véu, proibia suas mães de cantar em público e enforcava suas primas por protestar nas ruas de Teerã.

A Austrália assinou um contrato de urânio com Teerã no passado recente, vende carne, trigo e minério para aquela mesma teocracia, e agora se veste de salvadora de duas mulheres que tiveram a sorte de saber chutar uma bola. O cálculo é cruel em sua elegância. Asilo custa nada, rende manchete, produz discurso em parlamento e serve de anestésico para a consciência pesada de quem lucra com o regime que criou o problema. Enquanto isso, milhões de iranianas comuns, que não jogam futebol, não viajam com seleção e não têm passaporte internacional, continuam presas entre a polícia da moral e o bloqueio econômico patrocinado pelas mesmas democracias que hoje batem palma em Sydney.

É preciso entender a engenharia deste teatro. Sanções internacionais contra o Irã não derrubaram um único aiatolá em quarenta e cinco anos, mas destruíram a classe média iraniana, empobreceram o bazar, sufocaram o pequeno comerciante e empurraram a juventude para o desespero ou para o exílio. O regime, protegido pela renda do petróleo desviado via intermediários chineses e turcos, nunca passou fome. Quem passou fome foi o açougueiro de Isfahan, o professor universitário de Tabriz, a dona de casa de Shiraz que viu o rial virar pó. O bloqueio é um instrumento que mata civis em câmera lenta, sem precisar soltar um único míssil, e ainda permite que o bloqueador se apresente como defensor dos direitos humanos quando duas vítimas fotogênicas aparecem no saguão do aeroporto.

Há um padrão histórico que se repete desde que o mundo é mundo. Quando Roma queria justificar as legiões na fronteira, produzia refugiados. Quando o Império Britânico precisava legitimar o controle do Canal de Suez, descobria subitamente que as mulheres egípcias precisavam ser libertadas. Quando Washington invadiu o Afeganistão em 2001, as burcas viraram capa de revista, e quando Washington abandonou Cabul em 2021, as mesmas burcas sumiram da pauta editorial em quarenta e oito horas. O sofrimento feminino é combustível narrativo de alta octanagem, usado com parcimônia cirúrgica para aquecer opinião pública quando convém, e esquecido com igual eficiência quando o contrato de gás natural exige silêncio.

Ninguém está dizendo que as duas jogadoras não merecem proteção. Merecem, e qualquer ser humano decente torce para que reconstruam a vida longe do chicote moral dos guardas revolucionários. O problema é o uso político da tragédia delas. Camberra converte duas refugiadas em capital simbólico, lava a imagem com sabão humanitário, continua vendendo matéria-prima para o algoz que elas fugiram e encerra o ciclo ganhando pontos de virtude internacional ao custo zero. As duas atletas viraram peça publicitária de um governo que, se realmente quisesse ajudar iranianas, começaria por desmontar o sistema de sanções que afoga a mulher comum enquanto blinda o clero.

A liberdade individual, quando virou ferramenta de Estado, deixa de ser liberdade e vira propaganda. As duas jogadoras estão seguras, e isso é bom. Os oitenta e cinco milhões de iranianos que ficaram continuam esmagados entre um regime teocrático sustentado pelo petróleo e um cerco econômico imposto pelos mesmos países que hoje posam de libertadores. Futebol é esporte de onze contra onze. Geopolítica é esporte de dois lucrando e um bilhão pagando.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.