Há uma tradição antiga e muito lucrativa que consiste em envolver uma guerra em retórica de urgência existencial até que o contribuinte médio acredite que está financiando sua própria sobrevivência. O Irã faz esse papel com uma eficiência quase admirável: é o vilão perfeito, o inimigo que não pode responder na mesma moeda midiática, o país cujo nome evoca instintivamente turbantes e enriquecimento de urânio nos noticiários ocidentais. Que o Irã tenha interesses nacionais legítimos, população civil, comércio, filhos e mães, isso não cabe no espaço de 90 segundos do telejornal. Cabe, porém, no relatório trimestral da Raytheon, onde cada míssil disparado representa uma reposição de estoque a ser paga pelo Tesouro americano, que por sua vez será pago pelo americano mediano via imposto, dívida ou inflação. O mecanismo é sempre o mesmo. Só os nomes nos contratos mudam.

A pergunta "a guerra no Irã é totalmente inútil?" pressupõe que utilidade e inutilidade são categorias morais absolutas. Não são. São categorias de perspectiva. Do ponto de vista do piloto que perde uma perna, da família iraniana que perde uma casa, do médico em Teerã que opera sem anestesia porque as sanções bloquearam a importação, a guerra é catástrofe pura. Do ponto de vista do executivo que vende sistemas de defesa antimíssil tanto para Israel quanto para os países do Golfo que precisam se proteger das consequências da mesma guerra, trata-se de um trimestre excepcional. A história documenta esse padrão com monótona regularidade: a Guerra dos Trinta Anos enriqueceu os financistas de Augsburgo enquanto exterminava um terço da população alemã; as guerras napoleônicas faliram nações e criaram fortunas bancárias que ainda hoje existem sob outros nomes; o Vietnã custou 58 mil vidas americanas e gerou contratos de reconstrução que nunca se materializaram porque não havia nada para reconstruir exceto o cemitério.

O cinismo particular desta janela histórica está na sobreposição de crises que a imprensa liberal americana trata como problemas separados mas que pertencem ao mesmo ecossistema de falência institucional. Viktor Orbán perde uma eleição na Hungria e isso é celebrado como vitória da democracia, como se democracia fosse o nome bonito para a aceitação das diretrizes de Bruxelas sobre orçamento, imigração e alinhamento militar. Kamala Harris e Eric Swalwell surgem no horizonte como possíveis candidatos democratas e a Reason, publicação que deveria saber melhor, trata isso como "questão de qualidade de candidatos" quando o problema é estrutural: um partido que passou décadas gerenciando o Estado profundo não consegue produzir alternativas fora dele. E um modelo de inteligência artificial da Anthropic é considerado "perigoso demais para ser lançado", o que significa, em linguagem não corporativa, que ele provavelmente diz verdades que certos grupos preferem que permaneçam inéditas. Todos esses fatos aparecem na mesma newsletter, sem conexão entre si, como se fossem acasos. Não são acasos. São sintomas.

O sintoma central é a expansão permanente do aparato de poder sobre a vida ordinária, seja via guerra declarada, seja via sanção econômica que os diplomatas nunca chamam de guerra mas que produz os mesmos resultados: desabastecimento, hiperinflação local, colapso da classe média, fuga de cérebros e, eventualmente, radicalização política que justifica a próxima rodada de intervenção. O Irã está sob sanções abrangentes há décadas. O resultado concreto não foi a queda do regime, que continua firme e até fortalecido pela narrativa de cerco externo. O resultado concreto foi o empobrecimento sistemático de uma população de 90 milhões de pessoas que não elege seus líderes e que, portanto, não tem responsabilidade alguma pela política nuclear de Teerã. Punir o povo para pressionar o governo é a lógica do hostage-taker aplicada à diplomacia internacional, e o fato de que isso não funciona há 40 anos não impediu ninguém de continuar tentando, porque as empresas que vendem os meios de monitoramento e enforcement das sanções também precisam de receita recorrente.

A questão não é se a guerra no Irã é útil ou inútil. A questão é que a pergunta em si já chegou atrasada, formulada depois que os contratos foram assinados, os lobbies foram financiados e os think tanks produziram seus relatórios com conclusões definidas antes da pesquisa começar. O debate público sobre guerra serve para dar aparência de deliberação democrática a decisões que já foram tomadas em salas que não têm janelas para a rua. O soldado que embarca no navio não foi consultado sobre a estratégia. O iraquiano que perdeu a casa em 2003 com a promessa de democracia que nunca veio também não foi. O iraniano que vai perder o que quer que perca neste ciclo também não será. A democracia, na prática da política externa americana, é o sistema pelo qual o povo vota de quatro em quatro anos em alguém que então passa quatro anos decidindo em nome de quem financiou a campanha. E quem financia campanhas não morre em guerra. Apenas lucra com ela.

Com informações da Reason. A análise e opinião são do O Algoz.