O comunicado oficial vem com a coreografia de sempre. Um drone, um alvo, um nome impronunciável abatido em algum vilarejo do Sahel, e a máquina de relações públicas do Comando África dos Estados Unidos solta o press release vitorioso sobre a eliminação de al-Minuki, descrito como a maior baixa do Estado Islâmico em anos. O detalhe que os jornais embedded esquecem de mencionar é mais interessante que a manchete: se este sujeito era tão central, tão devastador para a estrutura inimiga, por que ele estava vivo e operando livremente até semana passada, justamente na região onde os Estados Unidos mantêm a maior concentração de bases militares fora do Oriente Médio? A resposta incomoda porque é simples. Inimigo morto não gera orçamento suplementar.

O ISIS foi declarado derrotado em 2019. Houve discurso no Salão Oval, troféu de campanha, capa de revista. Cinco anos depois, o mesmo grupo supostamente aniquilado controla territórios em Burkina Faso, Mali, Níger e Nigéria, áreas curiosamente ricas em urânio, ouro, lítio e nas rotas que escoam o petróleo do Golfo da Guiné. A geografia da insurgência islâmica no continente africano coincide, com precisão quase ofensiva, com o mapa dos recursos estratégicos que a China vinha comprando a preço de banana enquanto Washington estava ocupado bombardeando casamentos no Iêmen. Quando o Níger expulsou as tropas francesas e americanas em 2023 e abriu suas minas de urânio para Moscou, descobriu-se subitamente uma nova onda terrorista que exigia, claro, mais presença militar ocidental.

Siga o dinheiro e a paisagem se ilumina. O orçamento do AFRICOM cresceu mais de 300% na última década, e os contratos de treinamento, logística, drones de vigilância e mercenários terceirizados foram parar nas mesmas três ou quatro empresas que dominam a indústria bélica desde a Guerra Fria. Lockheed, Raytheon, General Atomics e a constelação de prestadores privados que substituiu os exércitos regulares faturam alto cada vez que um comandante jihadista é morto, porque cada morte justifica a próxima operação, o próximo drone, a próxima base avançada construída em terra que ninguém pediu para invadir. O contribuinte americano paga, o camponês maliano morre, o acionista recebe dividendo trimestral. É o ciclo virtuoso da democracia exportada.

A história tem o péssimo hábito de se repetir para quem se recusa a lê-la. Os mujahedin afegãos foram armados nos anos oitenta para sangrar os soviéticos, e viraram a Al-Qaeda que justificou vinte anos de ocupação. O Estado Islâmico nasceu nos campos de prisioneiros americanos no Iraque pós-2003 e nas armas despejadas na Síria contra Assad. O Boko Haram cresceu na sombra do colapso líbio promovido pela OTAN, quando os arsenais de Kadafi foram pilhados e distribuídos pelo Sahel inteiro. Cada monstro do hoje foi incubado pela política de ontem. E cada nova operação contra esses monstros gera os monstros de amanhã, num esquema de assinatura recorrente que faria inveja a qualquer plataforma de streaming.

Enquanto isso, ninguém pergunta ao agricultor de Tillabéri se ele preferia não ter um Reaper sobrevoando sua plantação às três da manhã. Ninguém consulta a viúva de Mopti sobre o conceito de soberania compartilhada. Ninguém explica ao jovem nigeriano recrutado à força que sua morte servirá de estatística positiva no próximo relatório do Departamento de Defesa. A guerra ao terror, esse projeto eterno e autorreplicante, transformou o continente africano num laboratório a céu aberto onde se testam doutrinas, drones e narrativas, sempre com a mesma fórmula: cria-se o problema, vende-se a solução, fatura-se nos dois lados do balcão.

Al-Minuki está morto, e outro al-qualquer-coisa já está sendo promovido a comandante por algoritmo de sucessão jihadista. Daqui a seis meses haverá novo press release, nova vitória, nova justificativa para o orçamento de 2027. O terrorismo, descobriram em Washington, é o único inimigo que nunca decepciona: morre quando precisa morrer, ressuscita quando precisa ressuscitar, e nunca, jamais, ousa atacar uma fábrica de mísseis no Texas. Convenientemente imortal, como toda boa fonte de receita.

Com informações da Fox News World. A análise e opinião são do O Algoz.