Dois mortos e cerca de doze feridos num café apinhado no porto de Gaza. O comunicado militar dirá que foi um ataque cirúrgico contra um terrorista de alta patente, talvez dois, sempre conveniente o número. A imprensa ocidental reproduzirá a nota com a obediência de quem datilografa releases corporativos. Um café à beira-mar, num território onde o mar é uma prisão e a areia é cemitério, virou alvo legítimo no léxico contemporâneo da guerra assimétrica. A precisão do míssil é proporcional à imprecisão da explicação que virá depois.
Convém olhar a fatura. Cada bomba que cai sobre o concreto pulverizado de Gaza tem um número de série, um lote, uma nota fiscal e um acionista satisfeito do outro lado do Atlântico. As ações da Lockheed Martin, da Raytheon, da General Dynamics e da Northrop Grumman não conhecem cessar-fogo; conhecem ciclo de reposição de estoque. O contribuinte americano financia o arsenal, o israelense aperta o gatilho, o palestino enterra o filho, e o executivo do complexo industrial-militar embolsa o bônus trimestral. É o programa de transferência de renda mais eficiente já inventado pelo Estado moderno, e funciona há oito décadas sem auditoria séria.
A história tem padrões repetitivos para quem se dá ao trabalho de ler além das manchetes. Toda potência que precisa justificar um orçamento militar inflado encontra, milagrosamente, um inimigo existencial à mão. Roma chamava de pacificação da Gália o que hoje chamaríamos de limpeza étnica. O Império Britânico bombardeava aldeias mesopotâmicas nos anos vinte chamando aquilo de policiamento aéreo, doutrina que ressuscitou intacta no século XXI sob o eufemismo de strikes de precisão. A retórica muda, a viúva continua chorando o mesmo morto. O Estado que se proclama defensivo sempre acaba descobrindo que sua defesa exige, por coincidência, o território do vizinho.
O bloqueio de Gaza completa quase duas décadas. Bloqueio é ato de guerra desde que existe direito internacional, mas vira política humanitária quando praticado pelos aliados certos. Controla-se a entrada de calorias, de cimento, de remédio, de combustível, e depois espanta-se com a radicalização da população encurralada. O sítio é a forma mais antiga e mais covarde de guerra, e funciona porque mata devagar, sem fotografia espetacular. Quando o desespero produz violência, a violência justifica o cerco que produziu o desespero. O ciclo se retroalimenta com a regularidade de um relógio suíço, e cada volta do pêndulo enche outro contrato bilionário.
Enquanto isso, as chancelarias do mundo emitem suas notas de profunda preocupação, expressão diplomática que significa exatamente nada e custa exatamente o salário do funcionário que a redigiu. A ONU pede contenção, a União Europeia pede investigação independente, Washington pede que Israel cumpra o direito internacional sem nunca condicionar um único dólar da ajuda militar a esse cumprimento. É o teatro perfeito: indignação pública, conivência privada, cheque assinado. O palestino do café não viu nada disso. Não teve tempo. O último som que ouviu foi o sussurro de um drone que ele financiou sem saber, porque a globalização do imposto fez de cada trabalhador ocidental um sócio involuntário da indústria que o despedaçou.
Restará a contagem dos cadáveres, o número arredondado nas estatísticas, a próxima manchete substituindo esta. O café será reconstruído por alguma ONG financiada pelos mesmos governos que financiaram o míssil, num esquema circular onde a destruição alimenta a reconstrução e ambas alimentam o mesmo balanço patrimonial. O homem comum que tomava chá naquela mesa não era estatística para a família dele. Era pai, filho, irmão, vizinho. Para o mercado de defesa, era apenas a justificativa narrativa para o próximo pedido de suplementação orçamentária. E a fila de cafés a serem bombardeados é longa.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.