Há algo de quase litúrgico na maneira como cessar-fogos contemporâneos são anunciados e descumpridos no mesmo ciclo noticioso. Israel confirma a eliminação do novo comandante militar do Hamas em Gaza City, ataque que produziu pelo menos três mortos, e o faz sob a vigência formal de uma trégua negociada com pompa internacional. A palavra trégua, originalmente, designava um intervalo sagrado em que até gregos e troianos suspendiam o aço para recolher os mortos. Hoje, designa apenas o intervalo entre dois comunicados de imprensa. O vocabulário diplomático foi esvaziado com a mesma eficiência com que se esvazia um pente de fuzil.

A pergunta que ninguém faz nas coletivas é a mais simples: quem fornece as munições guiadas que acertam o apartamento certo no andar certo do prédio certo em Gaza City? A resposta atravessa o Atlântico, passa por linhas de montagem em Tucson, em Saint Louis, em Tel Aviv, e termina no balanço trimestral de acionistas que jamais ouviram falar do bairro que acabaram de demolir. Cada bomba JDAM custa o equivalente a uma casa de classe média, e cada casa de classe média destruída exigirá, em algum momento futuro, um contrato de reconstrução financiado pelo mesmo contribuinte ocidental que financiou a destruição. O ciclo é perfeito, fechado, e gera dividendos nas duas pontas. Construir e destruir são, no balanço final, a mesma linha de receita.

O Hamas, naturalmente, cumpre seu papel no espetáculo. Existe como justificativa permanente, renasce de cada decapitação como hidra contratualmente obrigada a fornecer o próximo vilão da próxima temporada. Eliminar o chefe militar é exercício recorrente desde 2002, e a cada eliminação um novo nome ocupa a cadeira, frequentemente mais radical que o anterior, fenômeno que qualquer estudante atento da insurgência argelina ou da repressão britânica na Irlanda do Norte teria previsto. O Estado que pretende exterminar a resistência pela força bruta acaba sendo seu mais eficiente recrutador. É uma lei tão antiga quanto Roma queimando Cartago e descobrindo, séculos depois, que o ressentimento sobrevive ao sal jogado nos campos.

O cessar-fogo, nesse contexto, não é mecanismo de paz, é instrumento de gestão da violência. Permite que as chancelarias respirem, que os mediadores cataris e egípcios cobrem honorários, que as imagens de Gaza saiam temporariamente das primeiras páginas e que a opinião pública ocidental esqueça o suficiente para tolerar a próxima escalada. Quando o míssil cai, ele cai sobre civis que tinham sido convencidos, por meio das mesmas autoridades internacionais, de que podiam voltar para suas ruas. A confiança no acordo é, ela própria, uma arma: o cadáver mais útil é aquele que acreditou no comunicado oficial.

E sob tudo isso, a geografia econômica que nunca aparece nos noticiários. O gás natural da Bacia do Levante segue intocado pelos foguetes, os corredores logísticos do Mediterrâneo oriental seguem sendo redesenhados, os contratos de defesa entre Washington e Tel Aviv batem recordes a cada trimestre, e a Faixa de Gaza permanece sendo, simultaneamente, o pretexto humanitário mais conveniente e o ativo imobiliário mais cobiçado do Mediterrâneo. Há planos de reconstrução já desenhados, com investidores já posicionados, esperando apenas a quantidade adequada de escombros para começarem a operar. O cinismo aqui não é literário, é contábil.

No fim, sobra o de sempre. A criança que dormia no quarto errado, o comerciante que abriu a loja confiando no anúncio da trégua, o soldado que cumpre ordens que jamais leu por escrito, o contribuinte americano que financia bombas que nunca verá cair e impostos que nunca verá retornar. O Estado mata, o Estado negocia, o Estado mata de novo, e em nenhum momento alguém pergunta ao indivíduo se ele autorizou a transação. A paz contemporânea é apenas a guerra com melhor assessoria de imprensa.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.