Quatro paramédicos libaneses foram mortos no sul do Líbano por ataques aéreos consecutivos de Israel. O método empregado é conhecido como triple-tap: o primeiro míssil atinge o alvo, o segundo atinge quem corre para socorrer, o terceiro atinge quem ainda se move. Não é erro de cálculo. Não é dano colateral. É doutrina. É protocolo. É o que acontece quando um Estado com orçamento militar de 24 bilhões de dólares anuais decide que paramédicos com coletes laranja são ameaças existenciais. Os socorristas carregavam macas, não lançadores de foguetes, mas isso nunca importou para quem opera drones a três mil metros de altitude com resolução suficiente para ler a placa de um carro.

O triple-tap não é invenção israelense. Os americanos aperfeiçoaram a técnica no Afeganistão e no Paquistão, onde drones Predator e Reaper executavam o mesmo balé macabro: primeiro o casamento, depois a ambulância, depois o funeral. O manual foi exportado com a mesma eficiência com que se exportam sistemas de defesa aérea e software de vigilância. Israel, que recebe anualmente 3,8 bilhões de dólares em assistência militar dos Estados Unidos, não apenas compra as armas, compra a doutrina que as acompanha. Cada munição guiada que pulveriza uma ambulância no sul do Líbano foi paga, em última instância, pelo contribuinte americano que mal consegue pagar o plano de saúde. A ironia seria cômica se não fosse escrita em sangue: o cidadão de Ohio financia a destruição de sistemas de saúde no Oriente Médio enquanto o dele próprio cobra 800 dólares por uma ida à emergência.

A Convenção de Genebra, aquele documento que diplomatas adoram citar em coletivas de imprensa e ignorar em salas de operações, é explícita: pessoal médico é protegido, veículos de resgate são invioláveis, atacar socorristas é crime de guerra. Mas crimes de guerra só existem para quem perde. Nenhum oficial israelense jamais sentou no banco dos réus em Haia por matar paramédicos, assim como nenhum general americano respondeu por Fallujah, nenhum piloto da OTAN respondeu por Belgrado, nenhum comandante saudita respondeu pelo Iêmen. O direito internacional é uma ficção conveniente que se aplica aos fracos e se suspende para os fortes. Quando a Corte Internacional de Justiça emite um parecer, as grandes potências emitem um comunicado dizendo que "discordam respeitosamente" e seguem bombardeando. A justiça internacional funciona exatamente como foi desenhada para funcionar: como decoração.

Enquanto paramédicos morrem, a máquina econômica que sustenta o conflito opera em perfeita harmonia. A Elbit Systems, maior empresa de defesa de Israel, reportou recordes de receita nos últimos trimestres. A Lockheed Martin, que fornece os F-35 usados nos bombardeios, viu suas ações subirem consistentemente desde outubro de 2023. A Raytheon, fabricante das bombas de precisão que pulverizaram aquelas ambulâncias, distribui dividendos generosos a seus acionistas. Existe uma cadeia produtiva inteira que começa no medo, passa pelo lobby em Washington, se materializa em contratos bilionários e termina em crateras no asfalto do sul do Líbano. Cada paramédico morto é, para o mercado financeiro, uma confirmação de que a demanda por reposição de estoque permanece aquecida. Não existe incentivo econômico para a paz quando a guerra é o produto mais rentável do catálogo.

O governo israelense dirá que os paramédicos estavam em "zona de operações ativas". Dirá que havia "inteligência indicando presença de combatentes". Dirá que "lamenta qualquer perda civil" enquanto aprova novos orçamentos para munição. A máquina de relações públicas funciona com a mesma precisão dos mísseis: cada morte tem um comunicado pronto, cada massacre tem uma justificativa técnica, cada crime tem um eufemismo. "Operação cirúrgica" é o favorito, como se bombardear paramédicos fosse um procedimento médico e não seu exato oposto. Os Estados Unidos pedirão "contenção de ambos os lados", como se houvesse simetria entre quem opera caças de quinta geração e quem opera macas de alumínio. A União Europeia expressará "profunda preocupação" e seguirá comprando tecnologia de vigilância israelense para monitorar suas próprias fronteiras. E amanhã, quando outros socorristas saírem para resgatar feridos no sul do Líbano, olharão para o céu antes de olhar para o paciente, porque aprenderam que, nesta guerra, salvar vidas é uma atividade de risco letal.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.