Há algo de teatral em ver um ministro da Defesa japonês implorar por "transparência" enquanto o país caminha para gastar dois por cento do PIB em armamento, meta sagrada imposta por Washington a cada vassalo da OTAN e do Indo-Pacífico. Koizumi sai a público para negar o óbvio, que o Japão está sim refazendo seu músculo militar, e o faz com a mesma cara séria de quem garante que o cassino é instituição beneficente. A Constituição pacifista de 1947, redigida sob ocupação americana, virou letra morta na prática, embora continue de pé no papel para efeito decorativo. O arquipélago que jurou nunca mais empunhar a espada agora encomenda quatrocentos mísseis de cruzeiro Tomahawk da Raytheon, caças F-35 da Lockheed Martin e sistemas Aegis no valor de bilhões. Diálogo franco, dizem. Franco com quem, exatamente, e sobre o quê.

O truque retórico merece dissecação. Ao rejeitar o rótulo de "neomilitarismo", Tóquio executa o velho jogo semântico de governos que precisam justificar para a própria população o desvio bilionário de recursos antes destinados à saúde, à previdência e à infraestrutura. A China é apresentada como ameaça existencial, a Coreia do Norte como espantalho útil, e Taiwan como linha vermelha emocional. O cardápio do medo está servido, e o contribuinte japonês, que envelhece em ritmo recorde e vê salários congelados há três décadas, paga a conta sem direito a opinar. A democracia parlamentar, nesses momentos, funciona como balcão notarial dos compromissos já fechados em Washington meses antes.

Siga o caminho do iene e a fantasia da soberania se desfaz. Cada Tomahawk vendido ao Japão é dinheiro que sai do bolso do assalariado de Osaka e entra direto no caixa de empresas listadas em Nova York, cujos maiores acionistas são fundos de pensão americanos e gestoras como BlackRock e Vanguard. A "defesa do Pacífico" é, na prática, um programa permanente de transferência de renda do trabalhador asiático para o rentista anglo-saxão, vestido com a roupagem nobre da contenção estratégica. Quando os F-35 começarem a precisar de manutenção, peças de reposição e atualizações de software, o ciclo se renova por décadas, amarrando Tóquio a uma dependência tecnológica que nem o Tratado de São Francisco de 1951 ousou impor de forma tão completa.

O argumento de que o Japão precisa se rearmar diante de vizinhos hostis tem o charme das verdades parciais. É evidente que Pequim expande sua marinha, que Pyongyang testa mísseis, que Moscou rondou as Curilas. Mas a história ensina, para quem quer ouvir, que corridas armamentistas raramente terminam em equilíbrio estável; terminam em catástrofe. Foi assim na Europa antes de 1914, quando cada chancelaria jurava agir apenas em legítima defesa enquanto enchia os arsenais. Foi assim no Pacífico antes de 1941, quando o cerco econômico e o embargo de petróleo empurraram um Japão acuado para Pearl Harbor. A diferença é que hoje as ogivas são termonucleares, e o Mar do Sul da China é um corredor de quatorze trilhões de dólares em comércio anual atravessado por navios cujos seguros pagam tributo silencioso a Lloyd's of London.

Há ainda o detalhe inconveniente das bases americanas em Okinawa, onde gerações de japoneses convivem com estupros, acidentes aéreos e contaminação por substâncias químicas perpetuas que os tribunais locais raramente conseguem processar por causa do Status of Forces Agreement. Tóquio fala em diálogo regional, mas o ocupante de 1945 nunca foi embora; apenas mudou de uniforme e passou a cobrar pelo serviço de proteção. A ironia é que quanto mais o Japão se "rearma", mais ele se torna dependente da cadeia logística e do guarda-chuva nuclear americano, porque os mísseis comprados precisam de coordenadas que só os satélites da Space Force fornecem. Soberania é palavra bonita para constar em discurso.

No fim, o que resta é o cidadão japonês comum, aquele que pega o trem das seis para o trabalho, paga impostos crescentes e ouve no telejornal que o país precisa de "capacidade de contra-ataque" para enfrentar um inimigo que nunca lhe foi apresentado pessoalmente. Esse trabalhador não terá dividendos da Lockheed na conta-poupança, não tomará café com os lobistas de Washington, não decidirá nada. Apenas pagará e, se a aposta sair errada, sangrará. Toda guerra começa com um ministro pedindo diálogo franco, e termina com um cemitério onde ninguém mais conversa.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.