O índice Nikkei 225 alcançou a máxima histórica nesta sessão, puxando consigo os mercados asiáticos num rali que os analistas de plantão atribuem às "crescentes expectativas de um acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra". Wall Street já havia fechado em recordes na véspera, e a euforia se espalhou por Tóquio, Seul, Hong Kong e Sydney como champanhe numa festa onde ninguém pergunta quem paga a conta. E ninguém pergunta porque a resposta é sempre a mesma: o contribuinte americano, o cidadão iraniano, o trabalhador japonês cujo fundo de pensão agora celebra lucros construídos sobre escombros.

Existe algo profundamente obsceno na forma como mercados financeiros reagem à diplomacia de guerra. O Nikkei não subiu porque crianças iranianas vão parar de morrer. Subiu porque a Mitsubishi Heavy Industries, a Raytheon, a BAE Systems e meia dúzia de empreiteiras globais já têm os contratos de reconstrução rascunhados em alguma gaveta de Washington. É o ciclo mais antigo e mais lucrativo da história humana: primeiro você destrói, depois você cobra para reconstruir, e no intervalo entre a bomba e o cimento, você vende ações. O complexo industrial-militar não é uma teoria de conspiração sussurrada em porões; é o maior programa de transferência de renda já concebido, operando à luz do dia, aplaudido por corretoras e abençoado por governos. O dinheiro sai do imposto, vira míssil, o míssil vira ruína, a ruína vira contrato, o contrato vira dividendo. O acionista brinda. O contribuinte nem sabe.

A própria expressão "acordo de paz" merece autópsia. Nenhum acordo entre Washington e Teerã jamais foi sobre paz. Cada rodada de negociação nos últimos quarenta anos foi sobre controle de rotas de petróleo, influência sobre o Estreito de Ormuz, contenção geopolítica da China na região e, mais recentemente, sobre quem vai fornecer gás natural liquefeito para uma Europa que cortou relações energéticas com a Rússia e agora mendiga alternativas. O Irã senta à mesa não porque quer harmonia, mas porque as sanções americanas estrangularam sua economia ao ponto de o rial não valer o papel em que é impresso. E os Estados Unidos negociam não por compaixão, mas porque manter uma guerra aberta no Golfo Pérsico com eleições se aproximando é o tipo de luxo que nem o Federal Reserve consegue financiar indefinidamente. A paz, quando chega por essas vias, não é conquista da diplomacia; é fadiga contábil.

Observe o padrão, porque ele se repete com a regularidade de um metrônomo desde pelo menos 1945. Os mercados despencam quando a guerra começa, e os grandes fundos compram na baixa. Os mercados disparam quando a paz se anuncia, e os mesmos fundos vendem na alta. No meio do caminho, milhares de pessoas morrem, cidades inteiras viram pó, populações são deslocadas, e uma geração de jovens volta para casa em caixões ou com traumas que nenhum programa de veteranos vai cobrir adequadamente. Mas o gráfico do S&P 500 fica bonito. O Nikkei bate recorde. Os ETFs de defesa entregam retorno de dois dígitos. E algum apresentador de telejornal anuncia o "otimismo dos mercados" com o mesmo tom com que se anuncia a previsão do tempo. Ninguém para pra traduzir o que "otimismo dos mercados" realmente significa: que alguém já calculou quanto lucro dá pra extrair do cadáver de um conflito que custou sangue alheio.

O Japão, aliás, tem uma relação particularmente cínica com esse tipo de rali. Uma nação cuja constituição, escrita sob ocupação americana, proíbe a manutenção de forças militares ofensivas, mas que nos últimos cinco anos dobrou seu orçamento de defesa, compra caças F-35 como quem compra eletrodoméstico e exporta componentes militares sob o eufemismo de "equipamento de uso dual". A bolsa de Tóquio celebra a paz no Oriente Médio enquanto suas indústrias se posicionam para a próxima escalada no Pacífico. É a velha arte de lucrar com a guerra alheia fingindo pacifismo. O Japão aprendeu bem com o mestre americano.

No fim, o que o recorde do Nikkei revela não é otimismo; é cinismo institucionalizado. É um sistema que transformou a vida humana em variável de planilha, onde a morte de um soldado iraniano de vinte anos é menos relevante que o spread de um título do Tesouro americano. Onde a destruição de um hospital em Teerã é absorvida pelo mercado em menos de um pregão. Onde a paz só interessa quando é lucrativa, e a guerra só incomoda quando sai cara demais. Os gráficos sobem, os fogos de artifício estouram em Wall Street, e em algum vilarejo do Irã, uma mãe ainda procura o corpo do filho entre os escombros que o mercado já precificou como oportunidade de compra.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.