O roteiro é velho, mas o palco continua novo a cada ciclo. Um apresentador de programa noturno, num esquete antes do tradicional jantar dos correspondentes da Casa Branca, soltou a tirada chamando Melania Trump de "viúva expectante", e o gabinete presidencial reagiu com a fúria moralista de quem nunca riu de ninguém. Kimmel rebateu rápido, lembrando que humor político nos Estados Unidos é tão antigo quanto a república, e que governo ofendido por piada é governo desconfortável com o espelho. O detalhe que ninguém comenta é a coreografia: o mesmo establishment midiático que passou anos zombando de adversários políticos agora se descobre vítima quando o alvo muda de cadeira. A indignação tem CEP.

O jantar dos correspondentes, aliás, é a peça de teatro mais reveladora do circuito imperial americano. Repórteres que deveriam ser cães de guarda do poder sentam-se à mesa do poder, brindam com o poder, riem das piadas do poder e, na manhã seguinte, escrevem que cobrem o poder. Trocam-se contratos publicitários, acessos privilegiados, vagas em comitês de lobby disfarçados de think tanks. A imprensa corporativa americana fatura bilhões justamente por essa proximidade promíscua, e o espetáculo anual serve para reciclar a ilusão de adversariedade. Quando alguém quebra a etiqueta, como Kimmel fez, todos descobrem subitamente um pudor que nunca tiveram diante de bombardeios em Bagdá, Trípoli ou Saná.

É instrutivo observar quem se ofende com o quê. A piada sobre uma eventual viuvez foi tratada como afronta nacional, mas o mesmo público político engole sem soluçar os números frios das guerras que ele mesmo aprovou. A Casa Branca, qualquer Casa Branca, dos últimos quarenta anos, tem na biografia centenas de milhares de viúvas reais, espalhadas pelo Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iêmen, Ucrânia, financiadas com dinheiro extraído do contracheque do americano médio para encher os cofres dos cinco maiores fabricantes de armas do planeta. A piada de Kimmel é mau gosto. A política externa é necrológio em escala industrial. Adivinhe qual gera mais lucro.

A história americana é farta em humoristas que cutucaram presidentes e sobreviveram. No século dezenove, jornais satíricos pintavam Lincoln como gorila, Andrew Jackson como tirano de chapéu, e ninguém mandou bater à porta do redator. A liberdade de zombar do poderoso era considerada não um luxo, mas o termômetro mínimo de uma república que ainda respirava. Quando o palácio começa a exigir respeito da plateia, costuma ser o sintoma final, não o primeiro, de que a república virou corte. Roma teve seus Juvenais até descobrir que sátira incomoda imperador; depois disso, virou epitáfio.

O mais cômico, no entanto, é o reposicionamento das torcidas. Os mesmos comentaristas que durante anos declararam que "palavras são violência" agora descobrem o valor sagrado da liberdade de expressão, enquanto o lado oposto, que jurava defender o humor irrestrito, descobre súbita sensibilidade quando o alvo é dos seus. Não existe princípio, existe conveniência. Não existe ética, existe time. E enquanto a opinião pública se digladia sobre uma piada de trinta segundos, passa silencioso pelo Congresso mais um pacote bilionário de "ajuda externa" que vai pousar, traduzido em mísseis, sobre o telhado de alguém que jamais ouviu falar de Jimmy Kimmel.

O contribuinte americano, esse personagem invisível de toda análise política séria, paga a conta de tudo. Paga o salário do staff que se ofendeu, paga a segurança do comediante que provocou, paga o hangar do avião presidencial, paga as bombas que produzem viúvas verdadeiras a sete mil quilômetros de distância. E ainda assina embaixo da indignação que lhe vendem pronta no horário nobre. A piada passa, o império permanece, e a única viúva garantida no fim da história é a liberdade que se acreditou herdada para sempre.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.