O Bayern de Munique confirmou diante do Stuttgart aquilo que a tabela já sabia em agosto, que o calendário já sabia em julho e que a contabilidade europeia sabe há mais de uma década. Harry Kane, o inglês contratado para resolver um problema que já não existia, empurrou a bola para o fundo da rede e oficializou o décimo segundo título consecutivo da Bundesliga. Faltava um mês inteiro de competição, o que em qualquer esporte saudável seria vergonha, mas na Alemanha virou liturgia. Chamam isso de campeonato nacional. Eu chamo de cerimônia de posse.
Não existe milagre bávaro, existe planilha. O clube de Munique fatura, em média, o dobro do segundo colocado em receita de patrocínio, e quando algum rival ousa montar um elenco competitivo, o mecanismo é sempre o mesmo, compra-se o zagueiro, compra-se o meia, compra-se o treinador, compra-se o diretor esportivo. Dortmund que o diga, pois já foi saqueado tantas vezes que virou clube-fornecedor, uma espécie de colônia futebolística que entrega matéria-prima ao centro imperial e recebe migalhas de volta. O Leverkusen rompeu o ciclo por uma única temporada e imediatamente teve seu técnico cortejado e seu elenco desmontado peça por peça. A punição pela ousadia é sempre rápida.
A narrativa oficial fala em gestão exemplar, filosofia de formação, tradição vencedora. É a mesma conversa que impérios sempre usaram para justificar a assimetria entre metrópole e província. A verdade menos poética é que a Bundesliga opera sob uma regra de distribuição televisiva que premia desproporcionalmente o topo, sob um modelo de sócios que blinda o Bayern de tomadas hostis mas permite que ele devore tudo em volta, e sob uma complacência federativa que transformou a liga em vitrine de marketing bávaro. O campeonato alemão não é disputado, é encenado. O roteiro é escrito em Munique, os coadjuvantes apenas preenchem os domingos.
Kane é o símbolo perfeito dessa engrenagem. Passou a carreira inteira sem ganhar nada na Inglaterra, foi buscado na Baviera não por necessidade técnica, mas por necessidade de vitrine, e agora coleciona medalhas que caberiam em qualquer atacante mediano empurrado para aquele elenco. O inglês que nunca venceu venceu duas vezes seguidas, e ninguém se pergunta se o mérito é do jogador ou da estrutura que transforma qualquer centroavante em artilheiro. É o mesmo truque dos grandes monopólios industriais do século passado, pinta-se o funcionário como gênio para que ninguém questione o tamanho descomunal da empresa.
O torcedor alemão comum, aquele que paga ingresso, camisa e assinatura de streaming, sustenta um espetáculo em que o vencedor é conhecido antes da primeira rodada. Paga para assistir à própria irrelevância. Em compensação, enche estádios, canta hinos e é tratado como parte de uma tradição romântica que há muito deixou de existir. O futebol, como quase tudo que o poder toca, foi transformado em um mecanismo de transferência de entusiasmo popular para balanço financeiro de acionista. A arquibancada grita, o escritório lucra.
Continuarão chamando a Bundesliga de liga competitiva, continuarão vendendo pacotes internacionais de transmissão, continuarão fingindo surpresa quando o Bayern levantar o décimo terceiro, o décimo quarto, o décimo quinto troféu consecutivo. A única competição real que resta no futebol alemão é a disputa entre os perdedores pelo direito de serem saqueados com mais elegância no próximo mercado. O resto é coreografia.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.