A KNDS, conglomerado nascido do casamento entre a francesa Nexter e a alemã Krauss-Maffei Wegmann, anunciou que está caçando capacidade industrial nas montadoras de automóveis europeias para escalar a produção de tanques Leopard e blindados Leclerc. A justificativa oficial é nobre como sempre: rearmar a Europa diante da ameaça russa, atender encomendas da Ucrânia, suprir os exércitos do continente. A justificativa real, aquela que ninguém imprime no comunicado à imprensa, é bem mais prosaica e segue uma regra histórica que não falha nunca: onde há dinheiro público jorrando, há fila de fornecedor formada antes mesmo de a torneira abrir.
Convém olhar o que não está sendo dito. As montadoras europeias estão com capacidade ociosa porque a transição forçada para o carro elétrico, decretada de cima para baixo por burocratas em Bruxelas, quebrou a espinha da indústria automotiva tradicional. A Volkswagen demite aos milhares, a Stellantis fecha fábricas, a economia alemã encolhe pelo segundo ano seguido. E eis que aparece o salvador fardado oferecendo contratos militares de longuíssimo prazo, com pagamento garantido pelo Tesouro, sem risco de mercado, sem concorrência real, sem consumidor reclamando do preço. É a estatização da demanda travestida de parceria estratégica.
Há algo de profundamente revelador no espetáculo de uma indústria que foi destruída pela regulação verde sendo resgatada pela regulação militar. Primeiro o Estado quebra o setor decretando o fim do motor a combustão antes que a tecnologia substituta esteja madura, depois o mesmo Estado ressuscita o que sobrou transformando as linhas de montagem em arsenais. O operário que ontem parafusava um Golf hoje vai parafusar uma torre de canhão de 120 milímetros, e o pagador da conta é o mesmo cidadão dos dois lados: como consumidor inflacionado pelo carro elétrico subsidiado, e como contribuinte sangrado pelo orçamento de defesa expandido.
O arranjo é elegante na sua perversidade. A KNDS é controlada em partes iguais pelos governos francês e alemão, ou seja, é uma estatal disfarçada de empresa privada que vai contratar montadoras privadas para produzir bens que serão comprados por governos com dinheiro de impostos. Em cada elo dessa corrente há comissão, há lobby, há diretor recém saído do ministério, há ex-general no conselho de administração. O capitalismo de compadrio em sua forma mais pura, aquela que o pai da economia política já denunciava no século dezoito quando dizia que toda vez que comerciantes do mesmo ramo se reúnem, a conversa termina em conspiração contra o público.
E há ainda a dimensão moral que ninguém quer encarar de frente. Converter capacidade civil em capacidade militar em tempos de paz não é decisão técnica, é decisão civilizacional. É apostar que haverá guerra suficiente para amortizar o investimento, é criar um lobby permanente interessado em manter tensões geopolíticas elevadas, é construir uma estrutura produtiva que precisa de inimigo para sobreviver. Quem fabrica tanques precisa vender tanques, e quem vende tanques precisa de comprador, e o comprador só compra se tiver com quem brigar. O complexo industrial militar não causa guerras sozinho, mas torna a paz economicamente inconveniente.
O contribuinte europeu, esse personagem invisível que aparece sempre no fim da fatura e nunca na mesa de negociação, vai pagar três vezes pela mesma brincadeira. Pagou para destruir a indústria automotiva com regulação verde, vai pagar agora para reconverter o que sobrou em indústria bélica, e pagará depois quando os tanques produzidos precisarem ser usados para justificar o investimento. Chamam isso de política industrial estratégica. O nome correto, aquele que a história sempre acabou registrando, é outro bem menos elegante.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.