O roteiro foi escrito como se houvesse um departamento de marketing supervisionando cada posse de bola. Vinte e dois pontos de desvantagem, a torcida do Madison Square Garden quase resignada, e então a virada épica conduzida por Brunson, trinta e oito pontos no boletim, prorrogação eletrizante, vitória por 115 a 104. O esporte profissional americano há muito deixou de ser apenas esporte; é produto televisivo de altíssima margem, e Jogo Um de playoff sempre rende mais audiência do que o segundo, o terceiro, o quarto. Coincidência? Quem acompanha o calendário da liga sabe que a sorte ali raramente é sorte.
Por trás do brilho dos refletores existe uma engrenagem financeira que faria corar qualquer cartel medieval. A NBA fechou contrato de transmissão estimado em setenta e seis bilhões de dólares por onze anos com Disney, NBC e Amazon. Cada cesta de Brunson, cada toco improvável, cada lance livre na prorrogação vale frações de centavos de publicidade, e esses centavos se multiplicam em bilhões. O atleta sua, o torcedor grita, o acionista da Madison Square Garden Sports Corp sorri. A virada heroica não foi apenas atlética; foi um evento de geração de receita perfeitamente cronometrado para o início da pós temporada.
O Madison Square Garden, palco da catarse novaiorquina, foi reformado com generosos benefícios fiscais municipais ao longo de décadas, isenção que, segundo estimativas independentes, já custou aos contribuintes da cidade mais de novecentos milhões de dólares desde os anos oitenta. O cidadão comum de Nova York, aquele que talvez nunca pisará na arena porque o ingresso mais barato custa o equivalente a três dias de salário mínimo americano, subsidia o entretenimento de banqueiros, executivos e turistas que pagam mil dólares por uma cadeira atrás do banco de reservas. É o velho esquema circense romano repaginado: pão e jogos, com a diferença de que agora o pão também é cobrado, e o jogo é monetizado em streaming.
Cleveland, do outro lado, vive a economia clássica das cidades de meia tabela industrial americana, com franquia esportiva sustentada por subsídios estaduais para a Rocket Arena e impostos locais sobre hotelaria. Quando o Cavs perde, perde também o argumento político que justifica o próximo cheque público de manutenção. Quando vence, vira moeda eleitoral. Não existe partida neutra no esporte profissional moderno; cada bola que entra ou sai redesenha contratos publicitários, valorizações acionárias e disputas por verbas municipais. O torcedor pensa que está vendo basquete, está vendo balanços trimestrais disfarçados de competição.
Brunson, vale lembrar, ganhará cento e cinquenta e seis milhões de dólares ao longo do contrato atual, e ainda assim é considerado uma pechincha pelos padrões da liga, porque renegociou para baixo a fim de permitir que a franquia montasse elenco competitivo. Gesto nobre? Talvez. Cálculo frio de marketing pessoal, valorização de imagem e patrocínios paralelos com Nike, Stance e diversas marcas regionais? Certamente também. No capitalismo do espetáculo, até a generosidade tem planilha de retorno sobre investimento. O herói da noite é, antes de tudo, uma marca registrada com dois braços, duas pernas e arremesso confiável de três pontos.
A virada de vinte e dois pontos entrará para a antologia das noites memoráveis da NBA, será reprisada em comerciais, vendida em camisetas, transformada em conteúdo de redes sociais por algoritmos que monetizam cada visualização. O torcedor sairá da arena com a sensação de ter testemunhado história, e em certo sentido testemunhou mesmo, a história de como o entretenimento de elite americano aprendeu a transformar suor alheio em dividendos infinitos. Roma também aplaudia seus gladiadores até descobrir que o império estava falido. A diferença é que agora o coliseu tem patrocínio da Amazon Prime.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.