O KOSPI fechou em recorde histórico nesta semana, empurrado para o topo pelas ações da Samsung Electronics e da SK Hynix, as duas fabricantes de chips de memória que hoje sustentam metade da infraestrutura de inteligência artificial do planeta. Não é coincidência, não é sorte, não é "momento favorável dos mercados globais" como gosta de escrever o repórter da Faria Lima que precisa preencher coluna às sete da manhã. É o resultado de uma escolha civilizacional feita há quarenta anos, quando um país pobre, devastado por guerra, sem recursos naturais e cercado por vizinhos hostis, decidiu apostar tudo em produzir algo que o mundo precisasse. Apostou em silício. Ganhou.
Olha, o sujeito que ainda acredita que desenvolvimento econômico se faz com BNDES subsidiando frigorífico de amigo do presidente, ou com banco estatal financiando estádio para Copa do Mundo, devia passar uma semana estudando como a Coreia do Sul saiu do nada. Não foi planejamento central, não foi ministério do desenvolvimento industrial criando "campeões nacionais" por decreto, não foi imposto sobre importados para "proteger a indústria nacional". Foi a coisa mais antiga do mundo: deixar empresário arriscar capital próprio em mercado competitivo, com regra estável, juro civilizado e câmbio que reflete a realidade. O Estado coreano fez sua parte minimalista, infraestrutura, educação técnica decente, sistema jurídico previsível, e saiu da frente. O resto foi a Samsung tentando, errando, tentando de novo, até virar o que virou.
Enquanto isso, a bolsa brasileira oscila ao sabor da próxima fala do ministro da Fazenda sobre meta fiscal que ninguém acredita, do próximo decreto presidencial que muda regra tributária no meio do ano, da próxima invenção do Congresso para taxar dividendo, fundo exclusivo, offshore, e qualquer outra coisa que ainda gere algum capital produtivo neste país. O investidor estrangeiro olha para o Brasil e vê risco regulatório, insegurança jurídica e um Judiciário que decide questão econômica por humor. Olha para a Coreia e vê chip, robô, navio, carro elétrico e cinco décadas de coerência institucional. Onde você colocaria seu dinheiro.
E aqui vem a parte que ninguém quer ouvir. A Coreia do Sul não chegou onde chegou porque tinha um povo geneticamente mais trabalhador, nem porque o confucionismo é mais produtivo que o catolicismo, nem por qualquer dessas explicações culturalistas preguiçosas que economista de televisão repete para encher tempo. Chegou porque, num momento histórico decisivo, escolheu liberdade econômica em vez de tutela estatal, abertura comercial em vez de protecionismo de quintal, e responsabilidade fiscal em vez de gastança eleitoreira. O Brasil, na mesma janela histórica, escolheu o oposto em cada uma dessas bifurcações. O resultado está na cotação do won contra o real, está no PIB per capita, está no fato de que uma família coreana de classe média compra carro com três meses de salário e a brasileira leva três anos.
O recorde do KOSPI não é notícia financeira, é notícia civilizacional. É a confirmação empírica, mais uma, de que países que respeitam propriedade privada, contrato, moeda forte e iniciativa individual prosperam, enquanto países que tratam empresário como inimigo de classe, imposto como instrumento de justiça social e regulação como forma de proteger amigos definham na irrelevância. A Samsung vale hoje mais que toda a bolsa brasileira somada. Pense nisso na próxima vez que ouvir alguém defender que o Brasil precisa de "mais Estado na economia". Já temos Estado demais, é exatamente esse o problema, e é exatamente por isso que estamos onde estamos, vendo os outros baterem recorde enquanto discutimos se a CLT do garçom prevê comissão sobre couvert artístico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.