Bastaram alguns meses no número 10 de Downing Street para que o salvador anunciado da social-democracia britânica se transformasse no problema a ser descartado. Keir Starmer, eleito sob a promessa vaga de "mudança" e a engenharia de marketing mais cara da história recente do Partido Trabalhista, agora recebe ultimato de seus próprios pares depois que o eleitorado britânico cuspiu nas urnas locais de quinta-feira. Um deputado da própria bancada deu até segunda-feira para o gabinete reagir, sob pena de acionar o gatilho da disputa pela liderança. Tradução honesta: o partido que vendeu estabilidade está prestes a devorar o homem que vendeu a estabilidade.
Convém entender o ritual. Em Westminster, o primeiro-ministro não é eleito pelo povo, é entronizado pela cúpula do partido vencedor e mantido enquanto for útil aos financiadores, aos sindicatos cativos, aos think tanks que escrevem os discursos e às fundações que pagam as pesquisas de opinião. Quando o produto começa a encalhar nas prateleiras, a gerência troca a embalagem. Foi assim com Theresa May derrubada por seus, com Boris Johnson defenestrado pelos seus, com Liz Truss humilhada em quarenta e nove dias pelos seus. O eleitor britânico, esse personagem decorativo, descobre pela manhã que dormiu numa democracia e acordou numa coordenação de gabinete.
O detalhe que a imprensa generalista esquece de mencionar é o que motiva a fúria interna. Não se trata de princípio, trata-se de cadeira. As perdas locais significam menos vereadores, menos contratos municipais, menos cargos comissionados, menos fluxo de dinheiro público circulando pelas redes clientelistas que sustentam carreiras inteiras dentro do trabalhismo. Quando um partido que se diz dos trabalhadores se desespera com a perda de prefeituras, não é pelo trabalhador, é pelo orçamento das prefeituras. As folhas de pagamento engordadas, as licitações amigáveis, os consultorias para companheiros de militância: tudo isso evapora junto com os mandatos. A indignação parlamentar é contábil, não moral.
Enquanto a soap opera interna consome as manchetes, o Reino Unido segue financiando guerras alheias com dinheiro que não tem, mantendo bases militares em pontos do globo que nem o ministro da defesa saberia apontar no mapa, e enviando bilhões de libras em "ajuda" para regimes cujas elites lavam o dinheiro nos mesmos bancos londrinos que depois patrocinam a próxima campanha trabalhista. O contribuinte de Manchester, o aposentado de Liverpool, o pequeno comerciante de Birmingham que viu sua fatura de energia triplicar enquanto a inflação devorava sua poupança, esse sujeito não está nas planilhas de ninguém. Ele paga, cala e vota, e quando vota errado é chamado de populista pelos mesmos jornalistas que aplaudiram quando Starmer purgou a ala dissidente do próprio partido.
Há uma lição histórica antiga que nenhum governante quer aprender, talvez porque aprendê-la signifique abrir mão do brinquedo. Impérios em declínio sempre confundem agitação interna com problema de comunicação. Acham que basta trocar o porta-voz, reformar o gabinete, contratar nova consultoria de imagem. Roma fez isso por dois séculos antes de cair. Os Bourbons fizeram isso até a guilhotina. O trabalhismo britânico, em sua versão tecnocrática e gerencial, repete o ritmo: a casa pega fogo e a discussão é sobre quem segura a mangueira, nunca sobre quem ateou o incêndio. O incêndio, sempre, é o mesmo. Estado grande demais, gasto público sem controle, política externa intervencionista, classe política descolada do território que pretende governar.
O desfecho provável é tragicamente previsível. Ou Starmer cai e entra outro nome do mesmo cardápio, com o mesmo programa, financiado pelos mesmos doadores, comprometido com as mesmas guerras e com o mesmo desprezo bem-educado pelas preferências do eleitor comum. Ou Starmer sobrevive a custa de concessões que tornarão seu governo ainda mais refém das facções internas que o pressionam. De um jeito ou de outro, o britânico médio continuará pagando impostos para sustentar uma máquina que o trata como obstáculo, não como mandante. A democracia parlamentar moderna, vista de perto, é um clube fechado que aluga a fachada eleitoral a cada quatro anos para legitimar decisões já tomadas em jantares aos quais ele jamais será convidado.
Com informações da Fox News World. A análise e opinião são do O Algoz.