Enquanto a moeda americana derrete sob o peso de trinta e cinco trilhões de dólares em dívida, enquanto porta-aviões patrulham três oceanos cobrando pedágio imperial, enquanto bombas fabricadas em Connecticut caem sobre crianças em três continentes diferentes, a manchete que ocupa a atenção do contribuinte médio é a vitória dos Lakers na prorrogação. Três a zero na série. O Celtics atropelou o Sixers. O Spurs venceu sem o astro francês. Pão e circo, na fórmula que romanos refinaram dois mil anos atrás e que o capital americano industrializou em escala planetária. A diferença é que no Coliseu o sangue era real e o ingresso, gratuito; aqui o sangue é exportado e o ingresso custa o salário de uma semana.

A NBA movimenta cerca de dez bilhões de dólares por temporada, sustentada por contratos de transmissão que pulverizam o orçamento doméstico de famílias que mal pagam o aluguel. Disney, Warner, Amazon, todas ali brigando pelos direitos como abutres educados num leilão suíço. O contribuinte que financiou, via subsídio municipal, a arena onde o jogo acontece, paga de novo para assistir pela TV, paga uma terceira vez no merchandising, e ainda paga uma quarta vez no imposto que socorre o município falido. Quatro pagamentos pelo mesmo produto. Nem o feudalismo medieval foi tão eficiente em extrair renda do servo.

Os estádios merecem capítulo próprio nessa engenharia de pilhagem. Quase nenhum deles foi construído com capital privado. O modelo é sempre o mesmo: o bilionário dono da franquia ameaça mudar a equipe de cidade, a prefeitura cede e emite títulos de dívida pública, o povo paga juros por trinta anos enquanto o proprietário embolsa os lucros do naming rights. É a privatização do ganho e a socialização do prejuízo aplicada ao entretenimento, num modelo que faria corar qualquer barão ladrão do século dezenove. E o torcedor agradece, vestindo a camisa que custou cento e vinte dólares para enriquecer ainda mais quem já tomou seu dinheiro pelos impostos.

Há algo profundamente revelador no fato de que países cuja política externa derruba governos, impõe sanções que matam crianças por falta de remédio, bloqueia portos como ato de guerra disfarçado, dediquem suas primeiras páginas à disputa de uma bola laranja. Não é distração inocente. É anestesia industrial. O cidadão que sabe de cor a estatística do astro do Lakers mas não sabe quantos bilhões foram para a Ucrânia no último trimestre é o produto perfeito desta máquina. Vota dócil, paga em dia, morre na hora certa. O império precisa de espectadores, não de cidadãos, e o esporte profissional fornece a matéria-prima na quantidade exata.

Enquanto isso, o jogador que ganha quarenta milhões por temporada não percebe que é apenas o operário de luxo da indústria mais sofisticada de extração de atenção já criada. Ele acha que venceu o sistema porque saiu da quebrada para a mansão em Bel Air, sem entender que sua função é exatamente essa: ser o símbolo que mantém milhões de jovens acreditando que existe saída individual para um problema estrutural. A loteria do basquete cumpre o mesmo papel social que a loteria estatal, com a vantagem de parecer meritocracia. E quando o joelho estoura aos trinta e cinco, ele descobre que era apenas mais um ativo deprecíavel no balanço de alguém que nunca driblou ninguém na vida.

Roma caiu enquanto a plebe lotava o Circo Máximo discutindo qual aurelio venceria a próxima corrida de bigas. Bizâncio caiu enquanto os azuis e verdes se matavam nas arquibancadas do hipódromo. Toda civilização em decadência terminal investe pesadamente em espetáculo na proporção exata em que perde substância. Que a manchete de hoje seja sobre uma cesta de três pontos enquanto o mundo real queima em chamas geopolíticas não é coincidência jornalística. É diagnóstico.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.