Três civis morreram na região de Moscou em mais uma rodada do ritual que já dura anos, e o presidente ucraniano correu ao microfone para classificar o ataque como resposta "justificada" às ofensivas russas contra cidades ucranianas. A palavra "justificada" é a mais antiga ferramenta da diplomacia das chacinas, aquela que permite a qualquer governante transformar um cadáver em estatística aceitável desde que carregue o passaporte certo. Em Kiev como em Moscou, em Washington como em Bruxelas, o vocabulário é idêntico, a sintaxe é idêntica, só muda a bandeira pendurada atrás do púlpito.

Convém olhar para onde a câmera não aponta. Cada drone derrubado sobre Moscou exige reposição, cada míssil Patriot disparado custa entre dois e quatro milhões de dólares, cada brigada ucraniana destruída precisa ser reequipada com blindados que saem das linhas de montagem de Michigan, da Baviera e da Coreia do Sul. O conflito que entrou em seu quarto ano se transformou no maior programa de keynesianismo militar desde a Guerra Fria, com a particularidade saborosa de que o contribuinte alemão, americano e polonês paga a conta enquanto os dividendos engordam carteiras de investidores que jamais ouvirão o estrondo de uma explosão. As ações das principais fabricantes de armas ocidentais acumulam altas obscenas desde 2022, e nenhum analista financeiro tem a coragem de chamar isso pelo nome correto, que é lucro de sangue.

A retórica oficial insiste que se trata de uma guerra entre democracia e autocracia, fórmula tão batida quanto conveniente. A história, porém, tem o péssimo hábito de não cooperar com as narrativas dos ministérios da propaganda. Desde a expansão da Otan rumo às fronteiras russas nos anos noventa, desde o golpe de 2014 em Kiev patrocinado por gestos diplomáticos pouco discretos vindos do Departamento de Estado, desde a recusa sistemática em negociar neutralidade ucraniana quando ainda havia tempo, tudo conspirou para que o conflito atual se tornasse não apenas possível, mas rentável para quem fabricou as condições. Os impérios de outrora aprenderam a cobrar tributo das províncias; o império contemporâneo aprendeu a cobrar tributo dos próprios cidadãos via inflação, dívida pública e impostos, e a chamar isso de defesa do mundo livre.

No meio desse teatro macabro, perdem todos aqueles que sempre perdem. O recruta ucraniano de vinte anos que jamais quis pegar em armas mas foi caçado nas ruas de Odessa por oficiais de recrutamento que mais parecem sequestradores. A faxineira russa da periferia de Moscou que acordou viúva sem entender que disputa geopolítica tirou seu marido. O agricultor europeu falido pelo preço do diesel e do fertilizante. O motorista de aplicativo do Cairo que viu o pão dobrar de preço porque o trigo do Mar Negro virou peão num tabuleiro alheio. Estado nenhum chora por eles. Bandeira nenhuma cobre seus caixões.

Enquanto isso, a indústria da reconstrução já circula pelos corredores de Bruxelas com maletas e contratos pré-assinados, dividindo o mapa ucraniano em fatias antes mesmo que o último tiro seja disparado. Os mesmos bancos que financiaram a destruição financiarão o concreto que erguerá os prédios novos, os mesmos fundos que lucraram com a alta dos cereais lucrarão com a privatização das terras negras mais férteis do continente. É o ciclo perfeito, ensaiado no Iraque, aperfeiçoado na Líbia, repetido com leves variações de figurino. A guerra é, antes de qualquer coisa, um modelo de negócio com vítimas embutidas no preço.

Os três mortos na região de Moscou serão esquecidos antes do próximo boletim. Os milhares de mortos em Pokrovsk, em Kharkiv, em Belgorod, em Mariupol, seguirão a mesma rota até o anonimato. Apenas duas coisas serão lembradas com precisão contábil: o número de ações negociadas em Nova York e o número de empréstimos rolados em Frankfurt. Tudo o mais é discurso para câmera.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.