A cena tem a solenidade engraçada das coisas pequenas que se levam a sério demais. O presidente nacional do Democracia Cristã, sigla que vive das migalhas do fundo eleitoral e do tempo proporcional de televisão, assina uma nota oficializando o ex-presidente do Supremo como candidato à Presidência da República em 2026. A nota tem tom de evento histórico. O fato tem tamanho de comício de bairro. Entre o tom e o fato cabe um caminhão de dinheiro público, e é exatamente desse caminhão que se trata.
Comecemos pelo óbvio que ninguém quer dizer em voz alta. Partido nanico no Brasil não é movimento político, é empresa de aluguel de legenda. O sujeito que preside uma sigla microscópica não acorda pensando em refundar a República; acorda pensando em quanto vai pingar do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, quanto de tempo de propaganda gratuita ele consegue negociar, e qual nome conhecido ele convence a entrar no palanque para que a conta engorde. Lançar um ex-ministro do Supremo, com biografia de capa de revista, é o equivalente eleitoral de contratar um jogador veterano para subir o valor de mercado do clube. O candidato vira ativo contábil.
E quem paga essa brincadeira? O sujeito que trabalhou o mês inteiro, viu o salário ser triturado pela inflação que o governo decreta e finge não causar, e ainda tem o privilégio de financiar, via imposto, a estrutura que sustenta legendas que existem apenas no papel cartorial. O Fundão Eleitoral é, em essência, a confissão escrita de que a política brasileira virou autarquia. Não vive de filiados, não vive de convicção, não vive de doação voluntária; vive do confisco compulsório do salário alheio. Cada minuto de propaganda na televisão é pago por quem nunca foi consultado se queria pagar.
O caso do candidato em si merece o bisturi. Construiu fama em julgamento televisivo que virou novela nacional, foi alçado a herói moral por uma imprensa carente de santo laico, e sumiu logo depois, como costumam sumir os mitos quando se descobre que o palco era de papelão. Reaparece agora, num veículo partidário insignificante, com discurso que ainda não existe, programa de governo que ninguém leu, base parlamentar igual a zero. O que existe é o nome. E nome, no mercado eleitoral brasileiro, vale subvenção. A premissa é simples: candidato vistoso atrai voto; voto atrai cadeira; cadeira atrai recurso; recurso atrai sigla; sigla devolve favor. A conclusão é inevitável e ninguém precisa de doutorado para enxergar.
Há, claro, o ritual da indignação cívica de plantão, aquela mesma que aplaude qualquer candidatura embalada como antissistema enquanto o candidato em questão é, ele próprio, fruto puro do sistema togado, vitalício, blindado por foro, aposentado com proventos que o trabalhador comum só vê em sonho febril. Antissistema, no vocabulário nativo, virou apelido carinhoso para quem já foi sistema, está cansado do sistema, mas quer voltar ao sistema por outra porta. A retórica muda; a folha de pagamento, jamais.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre política brasileira. Quem paga essa encenação que se anuncia hoje e se arrastará por dezoito meses de palanque, jingle, santinho, marqueteiro, instituto de pesquisa amigo, jornalista comprado por verba publicitária estatal? Paga você. Quem recebe? Recebe o presidente do partidinho que ganhou relevância de um dia para o outro, recebe a estrutura paralela de consultores e fornecedores que orbita toda campanha, recebe o próprio candidato que reconquista holofote e, eventualmente, cargo. O resto é fumaça. E fumaça, no Brasil, custa caro, custa sempre, e custa do mesmo bolso.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.