A Lion Group veio a público para acalmar acionistas e dizer que continua firme segurando seus tokens Hyperliquid, peça central de uma estratégia de tesouraria cripto que a empresa vende como visão de futuro. Traduzindo do corporativês para o português: a companhia colocou parte relevante do caixa em um ativo digital ligado a uma exchange descentralizada e agora precisa convencer todo mundo, inclusive a si mesma, de que isso é prudência e não aposta. Quando uma empresa precisa reafirmar publicamente que não vai vender um ativo, é porque há mercado inteiro perguntando justamente isso.

Vale lembrar como a engenharia funciona. A empresa anuncia tesouraria em cripto, o token de referência sobe porque tem comprador institucional declarado, a ação da empresa sobe porque o balanço aparece valorizado, e o executivo aparece em entrevista falando em revolução do dinheiro. É o moto-perpétuo de Wall Street com roupa nova, o mesmo truque que já vimos com empresas comprando bitcoin para a tesouraria, com SPACs, com cannabis, com inteligência artificial, com o que estiver na moda. Enquanto o ciclo sobe, todo mundo é gênio. Quando vira, a palavra estratégia some do release e aparece a palavra reestruturação.

O ponto que ninguém quer encarar é que tesouraria corporativa existe para preservar capital de giro, pagar fornecedor, honrar folha, atravessar trimestre ruim. Trocar isso por um token que oscila vinte por cento num fim de semana não é diversificação, é transferir o risco do acionista pequeno, que não consegue sair, para dentro do balanço da companhia. Quem aplaude a manobra geralmente é quem já entrou no ativo antes e precisa de comprador maior para sair com lucro. Siga quem comprou primeiro, siga quem fala mais alto, siga quem ganha com a narrativa, e a história se monta sozinha.

Há ainda o detalhe inconveniente de que Hyperliquid é o token de uma plataforma de derivativos, ou seja, o ativo deriva valor do volume de alavancagem que circula por lá. Atrelar tesouraria a isso é atrelar a saúde da empresa ao apetite especulativo do mercado de criptos, exatamente o ciclo que costuma quebrar primeiro quando o crédito global aperta. É construir o telhado da casa em cima de outro telhado, e jurar que a fundação está sólida porque o segundo telhado é descentralizado.

Existe, é claro, o lado bom da história, e ele precisa ser dito sem hipocrisia. Empresa privada faz com o caixa dela o que bem entender, e isso é sagrado. O problema não é a Lion Group apostar, o problema é vender aposta como tese, é o regulador um dia inventar de socorrer quem se quebrou apostando, é o contribuinte virar fiador de exuberância alheia. Liberdade de arriscar pressupõe liberdade de quebrar, sem rede, sem subsídio, sem chorar pedindo guichê de salvação quando o vento mudar.

No fim, fica o retrato de uma época em que companhia listada se comporta como trader de fim de semana e chama isso de inovação financeira. Talvez seja mesmo o futuro, talvez seja apenas mais uma rodada do mesmo cassino com fichas novas. Quem viver de cotação, morrerá de cotação.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.