O recado vazou da forma habitual, pelos canais oficiosos que servem para testar a temperatura da plateia antes do anúncio formal. O ocupante do Planalto comunicou aos próximos que insistirá no nome do seu antigo advogado palaciano para a vaga aberta no tribunal mais poderoso da República, e que, se preciso for, deixa a indicação para depois de outubro, num cenário em que ele próprio se enxerga reeleito. Repare na elegância do arranjo. O homem que disputa a urna já sabe quem fará a leitura jurídica dos seus eventuais tropeços nos próximos dez, vinte, trinta anos. A vaga vitalícia é a apólice de seguro mais cara já contratada com dinheiro público.
Convém lembrar o que significa esse cargo no desenho atual. Um indivíduo escolhido por afinidade pessoal, sabatinado por um Senado que troca votos como quem troca figurinhas, e empossado para decidir, sem prazo, sobre a vida, a propriedade e a liberdade de duzentos milhões de pessoas. Não há eleição, não há prestação de contas, não há recall. O sujeito entra aos cinquenta e poucos anos e sai aos setenta e cinco, recebendo, no intervalo, os melhores contracheques do funcionalismo, com penduricalhos que envergonhariam um nobre da corte de Versalhes. E é para esse posto que se escolhe alguém pela única virtude de ter defendido o chefe nas horas tortas.
A lógica é simples e brutal. Quem indica espera lealdade, quem é indicado deve a cadeira a quem o indicou, e o cidadão comum, que financia o teatro com cada nota fiscal emitida, fica reduzido ao papel de plateia muda. Se o silogismo incomoda, que se desmonte uma das premissas. Não dá. O sistema foi desenhado assim, e o desenho favorece justamente os que estão no controle do desenho. Era exatamente o mecanismo das antigas monarquias absolutistas para nomear seus desembargadores de confiança, com a diferença pitoresca de que hoje se chama isso de democracia consolidada.
Há também a coreografia eleitoral por trás da espera. Adiar a indicação para depois de outubro tem dupla utilidade. Primeiro, evita o desgaste imediato com o Centrão, que já sinalizou preferir outro nome, mais maleável aos interesses do balcão parlamentar. Segundo, condiciona o voto do eleitor à promessa implícita de que, se o atual ocupante for renovado, a corte ganha mais um aliado de carteirinha. É a velha tática do mercador de feira que esconde a melhor mercadoria embaixo do balcão para forçar o freguês a voltar. Só que aqui o freguês não tem alternativa, porque o mercado é monopólio do mesmo dono.
E enquanto o circo se monta, ninguém pergunta o óbvio. Por que, afinal, um tribunal de onze pessoas vitalícias decide sobre temas que pertencem ao indivíduo, à sua família, à sua propriedade, à sua consciência? Por que aceitamos com naturalidade que advogados de presidentes virem juízes dos próprios presidentes, num revezamento que mais lembra time de várzea trocando de camisa no intervalo? A resposta está na trilha do dinheiro, sempre. Quem paga a conta é o contribuinte que nunca foi consultado. Quem recebe o cheque, o cargo, o jato, o jeton, o foro privilegiado e o respeito reverencial da imprensa palaciana é o eleito por afinidade. O resto é fumaça.
O eleitor de bom senso já entendeu há tempos que o jogo é viciado, e o vício está na própria regra. Mas, como toda servidão voluntária, esta também se sustenta pela combinação rara de medo e desinformação. Cabe a quem ainda enxerga apontar o truque, descrever o ilusionista e mostrar onde está a carta marcada. O rei está nu, vestido apenas pela toga preta que ele mesmo costurou. Rir é o primeiro passo. Recusar pagar a conta seria o segundo, mas isso fica para uma próxima coluna.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.