O homem que durante anos subiu em palanque para esbravejar contra o imperialismo, que fez questão de tietar ditadores caribenhos e aiatolás persas, que jurou de pés juntos que o Brasil falaria de igual para igual com as potências, aparece agora numa entrevista garantindo que não precisa "fazer esforço" para Trump perceber que ele é melhor que o antecessor. Traduzindo do basbaquês para o português dos adultos: está fazendo esforço, e do tipo constrangedor. Quando alguém precisa dizer em voz alta que não está fazendo algo, é porque está fazendo exatamente aquilo, e geralmente com mais empenho do que conviria à sua dignidade.
O pano de fundo é prosaico e tem cheiro de dinheiro, como sempre. As tarifas que Washington ameaça aplicar não atingem "o Brasil" enquanto entidade abstrata, atingem cadeias específicas de exportação, frigoríficos, siderúrgicas, cafeicultores, gente que opera com margens apertadas e calendários de embarque inflexíveis. Esse pessoal liga para o Planalto, o Planalto liga para o Itamaraty, o Itamaraty descobre que a retórica antiamericana de quinta a domingo custa caro no segundo semestre. Aí o herói antiimperialista vira sócio comercial, e a soberania, aquela coisa sagrada dos discursos, é discretamente colocada na gaveta junto com a bandeira da Palestina e o retrato do Maduro.
Há algo de cômico, e de profundamente revelador, no fato de o ocupante do Planalto sentir necessidade de comparar-se favoravelmente ao antecessor diante de um interlocutor estrangeiro. Não se anuncia ao rei vizinho que se é melhor que o rei anterior; anuncia-se o que se tem a oferecer, ou o que se pretende exigir. Quem precisa vender a própria superioridade moral está, na prática, confessando que o produto é frágil e o cliente, desconfiado. O silogismo é simples: quem negocia de posição forte fala de termos, quem negocia de posição fraca fala de si mesmo. Adivinhe em qual categoria se encaixa o esforço de relações públicas em curso.
E aqui entra a parte que ninguém quer encarar de frente. Toda essa dança custa. Custa em concessões silenciosas, em alinhamentos que serão negados em público e cumpridos em privado, em compras de bens que ninguém pediu, em recuos regulatórios que serão vendidos à militância como "pragmatismo". O exportador que sorri com o alívio da tarifa não percebe que a conta voltará pela porta dos fundos, na forma de algum subsídio cruzado, alguma renúncia fiscal, alguma compra direta do Tesouro que sai do bolso do brasileiro que nunca exportou um parafuso na vida. Privatizam-se os ganhos da negociação, socializam-se os custos do agrado. É o modelo da casa, e funciona faz décadas.
O mais saboroso é observar a imprensa cortesã reembalar a humilhação como sagacidade diplomática. O mesmo veículo que ontem chamava o gesto análogo do antecessor de "subserviência" hoje descobre que se trata de "habilidade política". O critério, claro, nunca foi o gesto, foi o gesticulador. É a velha regra do jornalismo de palácio: a mesma curvatura vira reverência ou genuflexão dependendo de quem assina a folha de pagamento simbólica do redator. Quando todo mundo concorda que algo é maravilhoso, convém checar se a maravilha não está justamente em distrair você do que está sendo combinado por baixo da mesa.
No fim, sobra a pergunta que abre e fecha tudo: quem paga e quem recebe? Recebe o exportador grande, que tem lobby e telefone direto. Recebe o operador político que monetiza o acesso. Recebe o presidente, que troca dignidade retórica por sobrevivência econômica do mandato. Paga o contribuinte anônimo, paga o pequeno produtor sem voz, paga o cidadão que assistiu a anos de discurso ufanista e agora descobre que a soberania tinha prazo de validade e cotação em dólar. O rei foi a Washington pedir que não batessem nele. Voltará dizendo que ganhou. E nós, como sempre, fingiremos acreditar.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.