Um homem sobe ao palanque em Florianópolis, olha para a plateia com aquela expressão de padre arrependido, e anuncia que vai acabar com as bets. No dia anterior, dissera que já havia decidido. No mesmo fôlego, informa que vai consultar a Fazenda e o Banco Central antes de definir medida alguma. Traduzindo do idioma oficial para o português comum: decidiu, mas ainda não decidiu, e vai perguntar aos donos do cofre se convém decidir. É a coreografia clássica do político que quer o aplauso do moralista sem perder o abraço do arrecadador.
Convém lembrar, porque a memória do brasileiro é curta e a do noticiário é ainda mais, que foi este mesmo governo que abraçou as bets, regulamentou a bagunça, distribuiu licenças e cravou a alíquota. A jogatina virou setor. O apostador virou contribuinte. A casa, como sempre, virou sócia. Antes de ser vício nacional, a aposta online foi decreto assinado, medida provisória debatida, portaria publicada. Ninguém acordou numa manhã e descobriu, chocado, que havia bets no país. Foi tudo autorizado com carimbo, papel timbrado e discurso de modernização.
Agora o santo padroeiro do palanque descobre que existe um problema social. Que famílias estão quebradas. Que o Bolsa Família está indo para o vermelhinho da roleta digital. Descoberta comovente, feita com atraso equivalente ao tempo necessário para o dinheiro entrar no caixa, gerar dependência regulatória e criar aquele tipo de indústria que ninguém mais consegue desmontar sem gritaria dos beneficiários. Quem paga essa história é o pobre que aposta os cinquenta reais achando que vai virar mil. Quem recebe é o Tesouro, é a plataforma licenciada, é o marqueteiro que vende o rosto do jogador famoso, é o influenciador que fatura por indicação, e é o próprio governo que agora quer aparecer como salvador da moral pública depois de ter sido cúmplice da libertinagem contábil.
O silogismo é simples e não perdoa ninguém. Se o Estado autoriza, tributa e regulamenta uma atividade, o Estado é sócio dela. Se depois o Estado se declara indignado com essa mesma atividade, ou o Estado é hipócrita, ou o Estado descobriu que a mordida foi menor do que o esperado, ou o Estado está de olho numa alíquota maior. Nenhuma dessas hipóteses combina com a fantasia de estadista preocupado com o bem comum. Todas combinam com a rotina de quem descobriu que dá para ser proibicionista da boca para fora e concessionário pelas costas.
Há um detalhe adicional que o discurso omite com esmero. Acabar com as bets, no vocabulário oficial, quase nunca significa acabar. Significa apertar, restringir, criar novas exigências, elevar a tributação, transferir a fatia dos pequenos operadores para os grandes que aguentam o peso regulatório, e, no fim da equação, produzir um mercado ainda mais concentrado, mais caro e mais dócil ao guichê da Receita. É o velho truque do vendedor de indulgências: proibir para poder cobrar mais caro pela permissão. Chama-se combate ao vício quando o objetivo é engordar o pedágio.
Se o presidente quisesse mesmo acabar com a jogatina eletrônica, faria uma coisa simples e desinteressante: revogaria a lei que a criou, abriria mão da arrecadação, mandaria a Receita devolver os tributos indevidamente incorporados e assumiria publicamente que o próprio governo foi o crupiê. Não fará nada disso, porque a conversão moral do político termina exatamente onde começa a planilha do Ministério da Fazenda. O resto é palanque, e palanque é para vender esperança a quem já perdeu no cartão de crédito. A casa sempre vence, e a casa, meus caros, mora no Planalto.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.