Existe uma ironia quase poética no fato de que o mesmo Oriente Médio que sustentou durante décadas as boutiques de Paris, Milão e Londres com petrodólares de sheikhs entediados agora aparece nos relatórios trimestrais da LVMH como "fator de risco". Bernard Arnault, o homem que por anos disputou o título de mais rico do mundo com Elon Musk, viu suas receitas frustrarem as expectativas do mercado. O motivo oficial: a guerra. O motivo real: quando se bombardeia uma região inteira, os compradores de bolsas Hermès e champanhe Dom Pérignon ficam ocupados demais com outras prioridades. Sobrevivência, por exemplo, costuma competir com o consumo de luxo.

A narrativa que circula nos corredores financeiros de Wall Street e nos escritórios de análise de Londres é simples e conveniente: a recuperação do setor de luxo, que já vinha manca por causa da demanda chinesa em colapso, levou mais um golpe inesperado por causa dos conflitos no Oriente Médio. O que essa narrativa omite, com a elegância cirúrgica de quem pratica o ofício há muito tempo, é que os mesmos governos cujas empresas de defesa lotaram seus balanços com contratos bilionários são os mesmos cujas empresas de luxo agora se queixam do impacto da guerra. A Raytheon e a Lockheed Martin fizeram o terceiro turno. A LVMH ficou para trás.

O mercado de luxo árabe não é detalhe: os compradores do Golfo Pérsico respondem por fatia considerável das vendas globais de marcas como Louis Vuitton, Dior e Bulgari. Somam-se a isso os fluxos turísticos que secaram, as rotas aéreas reconfiguradas, os ricos regionais que redirecionaram capital para ativos de proteção em vez de itens de couro italiano. A guerra, como sempre, redistribui riqueza. Só que redistribui de uma forma muito específica: tira do setor que produz coisas que as pessoas desejam e entrega ao setor que produz coisas que os governos encomendaram. O trabalhador francês que fabrica uma bolsa Louis Vuitton compete, sem saber, com o operário americano que fabrica um míssil antitanque. E perde.

A China, o outro personagem desta história, continua sendo o elefante na sala que nenhum executivo de luxo consegue ignorar. O consumidor chinês, que durante anos sustentou sozinho o crescimento vertiginoso do setor, está claramente retraído. Parte disso é econômico: a crise imobiliária drenando a riqueza da classe média urbana, o desemprego juvenil batendo recordes históricos. Mas parte disso é deliberada: Pequim incentivou discreta, mas consistentemente, uma virada para marcas nacionais de prestígio, numa resposta calculada às tensões comerciais com o Ocidente. Quando Washington sanciona empresas chinesas e Bruxelas ameaça tarifar veículos elétricos, não é surpresa que o consumidor de Xangai decida que talvez um relógio suíço não seja mais tão aspiracional quanto era.

O que os analistas de mercado chamam elegantemente de "pausa na recuperação do luxo" é, despido do eufemismo, o retrato de um mundo onde o capital migra para onde a violência organizada cria demanda garantida. Nenhum governo cancela um contrato de defesa por causa de orçamento. Todo governo, em algum momento, revisa para baixo os subsídios ao consumo doméstico. O ciclo é antigo, funciona com precisão relojoeira e tem vítimas em ambas as pontas: o civil de Gaza que perdeu tudo e o operário de Lyon que perdeu a hora extra. A guerra nunca é cara para quem a financia. Sempre é cara para quem paga o imposto.

A LVMH vai se recuperar. Empresas com aquele portfólio de marcas sempre se recuperam. O problema é que a próxima recuperação exigirá, como todas as anteriores, que alguma região do mundo esteja suficientemente em paz para consumir e suficientemente endividada para não questionar a conta. O Oriente Médio, por enquanto, está fora do jogo. A China joga com outras regras. A Europa está em recessão disfarçada de estagnação. E os Estados Unidos sustentam o consumo no crédito com a confiança tranquila de quem sabe que a conta vai vencer depois da próxima eleição. Enquanto isso, nos relatórios trimestrais, a guerra aparece como externalidade. Nunca como endereço.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.