Andrew, o homem que oficialmente já não é príncipe mas continua morando como se fosse, agora protagoniza mais um capítulo do interminável folhetim financiado pelo bolso alheio. Um sujeito de trinta e nove anos foi enquadrado por supostamente proferir ameaças nas redondezas da propriedade em Sandringham, o refúgio rural para onde o ex-duque foi convenientemente despachado depois que sua biografia ficou inconveniente demais para o palácio. Declarou-se inocente, como manda o roteiro, e o circo judicial segue. O que ninguém pergunta no telejornal é quem está pagando o teatro.
Pague-se atenção ao detalhe que a imprensa cortês prefere maquiar. Andrew perdeu títulos, perdeu honrarias militares, perdeu o tratamento de alteza, mas não perdeu absolutamente nada que importe materialmente. Continua dentro de uma propriedade da Coroa, cercado pela proteção da Royal Protection Branch, custeado pela Metropolitan Police, blindado por uma engrenagem de segurança que consome milhões de libras por ano do contribuinte que toma metrô lotado para ganhar salário mínimo. A fórmula é antiga e funciona como relógio suíço: privatizam-se os escândalos, socializam-se as faturas.
A história europeia está cheia desses arranjos. Quando uma corte se torna constrangedora demais para ser exibida, mas valiosa demais para ser descartada, inventa-se o exílio interno. Foi assim com bastardos régios escondidos em conventos, com tios incômodos despachados para castelos no campo, com herdeiros indesejados embarcados em viagens diplomáticas eternas. O verniz mudou, a engenharia continua idêntica. Sandringham hoje cumpre a função que Elba cumpriu para outros caídos em desgraça, com a diferença de que o vizinho ainda tem que financiar a cerca elétrica.
Siga o dinheiro e a paisagem fica nítida. A monarquia britânica custa oficialmente algo perto de cento e trinta milhões de libras por ano somente em Sovereign Grant, sem contar a segurança, sem contar o Duchy of Lancaster, sem contar os imóveis que a família ocupa sem aluguel de mercado. Cada ameaça verbal contra um membro caído em desgraça vira justificativa para mais câmera, mais agente, mais perímetro, mais orçamento. O incidente individual alimenta o aparato coletivo. O Estado nunca desperdiça uma boa indignação para inflar seu próprio músculo.
Enquanto isso, o cidadão de Norfolk que pagou por aquela proteção toda continua esperando médico no NHS, continua vendo a conta de energia subir, continua descobrindo que o sistema de justiça que processa rapidamente quem grita perto de um portão real arrasta processos comuns por anos a fio. Há sempre celeridade quando a vítima é simbolicamente cara ao regime, e há sempre lentidão quando o queixoso é apenas mais um pagador anônimo. A balança da justiça pesa em libras esterlinas, e ninguém finge mais o contrário.
O detalhe mais cruel da história nem é o suposto autor das ameaças, que terá seu dia no banco dos réus como qualquer outro. O detalhe cruel é a naturalidade com que se aceita que um homem destituído de títulos por motivos publicamente conhecidos siga consumindo recursos públicos como se nada tivesse acontecido. A monarquia constitucional vendeu durante séculos a fábula de que o rei reina mas não governa. Esqueceram de mencionar que ele também não trabalha, não produz, e mesmo assim cobra.
Com informações da Fox News World. A análise e opinião são do O Algoz.