O aperto de mão aconteceu no Grande Salão do Povo, aquele palco gigantesco onde o Partido Comunista ensaia há décadas o teatro da grandiosidade nacional, e a imprensa global imediatamente classificou o encontro como uma demonstração de realismo econômico, expressão simpática que serve para dourar qualquer pílula. Realismo, no vocabulário dos analistas pagos para serem otimistas, virou sinônimo de qualquer arranjo que envolva dois governos grandes negociando às custas de populações que não foram consultadas. Antes de aplaudir a foto, vale perguntar a coisa simples que ninguém quer responder em público: quando dois Leviatãs se encontram para repartir mercados, quem assina o cheque ao final do banquete?
A narrativa oficial vende a cena como ponto alto de uma estratégia que teria substituído décadas de concessões por competição direta. Belíssimo verbete de manual, salvo um detalhe inconveniente: competição direta entre Estados não significa competição entre empresas livres, significa cartel geopolítico, com tarifas, subsídios cruzados, controle de capitais e listas negras de tecnologia. O empresário americano que tentar vender chips a um cliente chinês precisa de licença, o produtor chinês que quiser despachar aço aos Estados Unidos paga taxa punitiva, e o consumidor dos dois lados engole o preço inflado como se fosse virtude patriótica. Chamam isso de soberania. O nome correto na contabilidade familiar é prejuízo.
Toda tarifa é um imposto disfarçado de bandeira, e todo imposto disfarçado de bandeira é especialmente eficaz porque o pagador acredita estar defendendo o próprio quintal enquanto sustenta o quintal alheio. A premissa é elegante, a conclusão é inevitável: se o protecionismo encarece o produto importado, o consumidor doméstico paga mais; se o consumidor paga mais, sobra menos para o resto da economia; se sobra menos para o resto da economia, o crescimento prometido pelos discursos vira estatística manipulada nas mesas de imprensa. A operação inteira existe para transferir renda de milhões de compradores anônimos para algumas centenas de produtores barulhentos com lobby montado em Washington e em Pequim. Mudam as bandeiras nas paredes, a engrenagem é a mesma.
A promessa e o perigo, expressão simpática que os colunistas escolheram para descrever a coisa, escondem o que importa de fato. A promessa pertence aos grandes contratistas militares, às montadoras protegidas, às big techs convenientemente realinhadas com os interesses nacionais, aos bancos que financiarão a reindustrialização subsidiada e à burocracia que distribuirá selos, licenças e isenções. O perigo, esse sim, fica com o sujeito comum, o que paga gasolina mais cara, o que verá a poupança corroída pela emissão monetária necessária para sustentar a aventura, o que perderá emprego quando a retaliação chinesa cair sobre exportações agrícolas e o agricultor descobrir que virou peão num xadrez do qual nunca quis participar.
Há uma analogia útil, embora os apologistas finjam que não existe. No fim do século XIX, impérios europeus repartiram a África em mesas de negociação enquanto os jornais celebravam a estabilidade do concerto das nações. A estabilidade durou até virar trincheira, e a trincheira virou cemitério. Sempre que dois governos enormes apertam mãos sorrindo, o terceiro a entrar na conta é o pagador de impostos, o pequeno produtor, o poupador, o cidadão que ainda acredita que liberdade econômica significa poder comprar e vender sem licença de funcionário público. Esse cidadão não foi convidado ao Grande Salão. Nunca é.
Quando os dois lados anunciarem o acordo final, com cerimônia, bandeirinhas e comunicado conjunto, observe atentamente quais setores subirem na bolsa e quais grupos políticos passarem a circular pelos corredores de ambos os governos com novos cartões de visita. Ali estará a resposta que a manchete educadamente recusou dar. Quem paga é o de sempre, anônimo, silencioso, atomizado, pulverizado em centenas de milhões de cobranças quase imperceptíveis. Quem recebe é o de sempre, com nome, sobrenome, escritório de advocacia, fundação familiar e assento reservado no próximo banquete. O Salão do Povo nunca foi do povo, e a Casa Branca há tempos deixou de ser apenas uma casa.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.