Existe uma contradição que deveria constranger qualquer pessoa com inteligência funcional: a mulher que o comitê do Nobel reconheceu como símbolo mundial da resistência democrática em 2025 não pode pisar em seu próprio país sem risco de ser sequestrada pelo aparato de um Estado que se chama, com a cara de pau característica do socialismo real, "república bolivariana". María Corina Machado anuncia que vai voltar à Venezuela "em breve", de algum lugar não divulgado, para liderar um "processo eleitoral capaz de abrir caminho para uma transição democrática". Isso é uma notícia. Mas é, ao mesmo tempo, a denúncia mais eloquente possível sobre o que Nicolás Maduro construiu no que foi, há não muito tempo, o país mais rico da América Latina.

A Venezuela não quebrou por acidente. Quebrou por doutrina. Havia petróleo suficiente para fazer daquele povo um dos mais prósperos do hemisfério, e havia, também, uma classe política disposta a usar esse petróleo não para criar riqueza sustentável, mas para comprar obediência, financiar aliados regionais, manter uma máquina de propaganda e sufocar qualquer forma de iniciativa privada que escapasse do controle do partido. O resultado é a fotografia que o mundo conhece: hospitais sem medicamento, supermercados sem comida, uma diáspora de quase oito milhões de pessoas espalhadas pela América do Sul e pela Europa. Quando o Estado controla tudo, o cidadão não tem para onde correr dentro de casa. Então ele abandona a casa.

O regime aprendeu com os manuais clássicos da tirania moderna que a aparência de legitimidade é mais barata do que a legitimidade real. Organiza eleições como quem organiza peças de teatro, com resultado escrito antes do ensaio. Quando a peça falha, como falhou de forma retumbante em julho de 2024, simplesmente ignora as atas, prende os fiscais, expulsa os observadores e declara vitória com a serenidade de quem nunca leu uma linha de lógica na vida. A comunidade internacional protesta, emite notas, convoca reuniões, e o regime passa para o dia seguinte como se nada tivesse acontecido, porque aprendeu que o protesto sem consequência é, na prática, um endosso disfarçado.

Machado representa algo incômodo para os que ainda insistem em enxergar o chavismo como um experimento social com boas intenções deturpadas. Ela é a prova viva de que há venezuelanos que escolheram a liberdade com plena consciência do custo. Não é uma figura de laboratório, não é uma candidata construída por consultoria eleitoral norte-americana, não é uma marionete de Washington, por mais que o regime repita essa cantilena para consumo interno e externo. É uma mulher que perdeu cargo, perdeu liberdade de locomoção, perdeu a garantia de voltar à própria casa, e mesmo assim continua de pé, continua articulando oposição, continua sendo o maior problema político de um ditador que comanda o maior exército e o maior aparato de repressão do país. Isso tem um nome nas tradições políticas mais antigas da humanidade: virtude cívica. A coisa mais rara e mais perigosa para quem está no poder sem legitimidade.

A promessa de retorno é, ela mesma, um ato político de primeira ordem, porque força o regime a mostrar o que é. Se Maduro a deixar entrar e circular livremente, admite que o processo eleitoral tem alguma substância. Se a prender, confirma ao mundo que a "democracia bolivariana" é ficção jurídica com tornozeleira eletrônica. Se a impedir de entrar sem prendê-la, revela a covardia específica de quem tem poder mas não tem coragem de assumir as consequências do que faz à luz do dia. Qualquer das três opções é uma derrota para o regime, e Machado sabe disso. Daí a clareza do anúncio. Não é imprudência, é estratégia.

O que resta perguntar, diante de tudo isso, é o que a esquerda latino-americana, que nunca perdeu uma oportunidade de invocar "democracia" e "direitos humanos" quando lhe convém, fará com este caso. A resposta, infelizmente, já se conhece: silêncio seletivo, nota de rodapé, mudança de assunto. Porque o socialismo real nunca falhou, segundo seus defensores, nunca foi verdadeiramente tentado. A Venezuela é apenas mais um capítulo de um livro que eles se recusam a terminar de ler, mesmo quando os venezuelanos nas filas de refugiados são a última página.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.