Quando alguém pergunta, com ar de espanto erudito, por que a política brasileira instalou uma autêntica paixão pela mentira, a resposta honesta deveria vir antes do ponto de interrogação fechar. Mente porque compensa. Mente porque o eleitor pune menos o mentiroso eficaz do que o sincero incômodo. Mente porque a estrutura inteira do poder, do palanque à propaganda oficial, foi montada para premiar quem narra melhor, não quem entrega melhor. O resto é decoração acadêmica em cima de um fato vulgar: a mentira virou insumo de produção, como aço para a siderúrgica.

Convém lembrar que isso não é vício moderno nem invenção tropical. Os tiranos da Antiguidade já sabiam que a espada cansa o braço e que é muito mais barato convencer o súdito de que a corrente no pescoço é, na verdade, um colar de honra. O império romano sustentou séculos de saque organizado distribuindo pão e circo enquanto o senado debatia, com gravidade litúrgica, a virtude da república. A diferença entre aquilo e a coletiva de imprensa de hoje é o figurino. A função é idêntica: organizar a percepção do rebanho para que ele aceite a tosa anual com gratidão.

Pergunte sempre o de praxe, quem paga e quem recebe. Quem paga é o sujeito que acorda às cinco, pega ônibus lotado e vê metade do contracheque desaparecer antes de chegar em casa, em tributos diretos, indiretos, embutidos no pão, no botijão, na conta de luz, no boleto do plano de saúde. Quem recebe é a casta que vive da narrativa, o operador de marketing eleitoral, o jornalista palaciano, o instituto de pesquisa contratado, o ministério criado por decreto para empregar o cunhado do correligionário, o publicitário que fatura milhões para vender ao contribuinte a ideia de que o saqueador é o seu protetor. A mentira, nesse arranjo, não é desvio, é o produto principal.

Há quem se comova com a tese de que governar exigiria, por natureza, alguma dose de fabulação, como se a política fosse teatro e o povo precisasse da suspensão da descrença para não enlouquecer diante da própria condição. Tolice solene. O argumento serve para legitimar o cinismo de quem já decidiu mentir e quer apenas uma capa filosófica para a operação. Se uma premissa é falsa, a conclusão é falsa, e nenhum verniz retórico transforma silogismo viciado em raciocínio honesto. Quando o ministro afirma que o imposto novo é justiça social, e o resultado é que o pobre paga mais caro pelo arroz, a frase está refutada pelo prato vazio, não pela tribuna do opositor.

O sintoma brasileiro tem agravante particular. Aqui a mentira deixou de ser tática e virou liturgia. Veio acompanhada de um clero togado disposto a chamar de democracia o que é apenas a vitória cartorial de uma facção, e de uma imprensa que, em vez de bisturi, oferece chá de camomila ao poder amigo e mostarda no olho do poder inimigo. Quando todos os púlpitos repetem a mesma homilia, e qualquer dissidência é tratada como heresia a ser silenciada por algoritmo, decreto ou multa, o cidadão atento sabe o que está acontecendo. Consenso unânime, em assuntos humanos, costuma ser sinônimo de fraude organizada. Verdade não precisa de censor, mentira sim.

A saída não é esperar que os profissionais da fabulação descubram, de repente, vocação para a sinceridade. Será preciso fazer com a política o que se faz com qualquer monopólio abusivo, reduzir o seu tamanho, cortar o seu orçamento, desconfiar de cada promessa, exigir o número antes do adjetivo, comparar o discurso de hoje com o discurso de ontem e com o saldo bancário do enunciador depois de amanhã. Enquanto isso não acontecer, o rei seguirá nu, desfilando entre cortesãos extasiados, e caberá ao leitor de bom senso aquilo que sempre coube aos poucos lúcidos em meio à festa, apontar o óbvio e rir, sem medo, da solenidade do embuste.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.