O Banco Master pagou R$ 1,4 milhão a um sujeito apelidado de "Rei do Lixo". Isso está na declaração de Imposto de Renda da própria instituição, ano de 2024, registrado com a lisura contábil que a lei exige e a consciência dispensa. O relatório é da Receita Federal, endereçado à CPI do Crime Organizado, que é o tipo de comissão parlamentar que existe para dar a impressão de que alguma coisa será investigada. A notícia apareceu na Revista Oeste com a naturalidade de quem já se acostumou a ver a podridão catalogada em planilhas e arquivada com carimbo oficial. Repita a frase devagar: um banco pagou um milhão e quatrocentos mil reais a um homem chamado "Rei do Lixo". Se houvesse dignidade mínima no debate público brasileiro, isso bastaria para travar o país por uma semana.
Marcos de Moura acumulou esse apelido pitoresco na Bahia não por modéstia intelectual, mas por décadas de operação no setor de resíduos sólidos municipais, onde o dinheiro público flui como esgoto e os contratos se assinam na penumbra das câmaras municipais. O setor de lixo no Brasil é, estruturalmente, um dos grandes aquedutos do desvio institucionalizado: prefeituras contratam, superfaturam, renovam sem licitação e dividem a propina com quem faz as regras. Não é acidente, não é exceção, é o modelo. Quando um banco de médio porte, que nos últimos meses acumulou manchetes sobre a tentativa de venda de sua carteira de CRIs podres ao FGC, aparece na trilha desse personagem, a lógica elementar obriga a uma pergunta: qual foi o serviço prestado? Consultoria? Assessoria? Intermediação? São os eufemismos que os contadores usam quando o produto entregue não pode ser descrito sem causar constrangimento judicial.
O Estado tem uma habilidade quase sobrenatural de transformar o crime em procedimento. Basta uma nota fiscal, um contrato de prestação de serviços, um CNPJ na Junta Comercial, e o que seria extorsão numa esquina vira "parceria estratégica" no balanço patrimonial. A República Velha ao menos tinha a honestidade do cinismo declarado. Os coronéis não fingiam que estavam construindo o país, eles diziam abertamente que o país era deles. O que se vê hoje é infinitamente mais sofisticado e, por isso, infinitamente mais difícil de combater: a corrupção se burocratizou, se formalizou, se certificou pela ISO da impunidade. Cada pagamento tem recibo. Cada recibo tem CNPJ. Cada CNPJ tem sócio. E cada sócio tem advogado, habeas corpus preventivo e coluna semanal num jornal de grande circulação para explicar que tudo não passa de perseguição política.
O Banco Master, convém lembrar, é o mesmo que passou meses negociando a transferência de sua carteira problemática para o Fundo Garantidor de Créditos, o que significaria, na prática, socializar o prejuízo privado com o dinheiro dos depositantes de outros bancos. O escândalo foi suficientemente grande para chegar ao Banco Central, o que já diz muito, dado que o Banco Central brasileiro tem uma longa e ilustre tradição de chegar tarde às festas. Agora o mesmo banco aparece com um repasse de R$ 1,4 milhão a um personagem que orbita o universo dos contratos públicos municipais baianos. A coincidência, como diria qualquer leitor com dois neurônios em contato, não existe na política. Existe interesse mal disfarçado de coincidência.
A lição que ninguém aprende, porque aprendê-la implicaria rever a fé depositada no aparelho estatal como motor do bem comum, é que o dinheiro sempre encontra o caminho. Proíba-se uma coisa, ele contorna. Regulamente-se outra, ele infiltra o regulador. Crie-se uma CPI, ele corrompe a CPI. Não é pessimismo, é observação histórica acumulada ao longo de séculos de experimentos com poder centralizado e recursos públicos. O Estado não é a solução para o problema que você está lendo agora. O Estado é o ambiente que tornou o problema possível, lucrativo e recorrente. O "Rei do Lixo" não existe apesar das prefeituras, das concessões e dos fundos públicos. Ele existe por causa deles. E o banco que lhe pagou R$ 1,4 milhão entende essa aritmética melhor do que qualquer editorial bem-intencionado jamais vai querer admitir.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.