A imagem é quase devocional. O homem de trinta e oito anos, isolado do restante do elenco, executa movimentos específicos para recuperar a fadiga muscular no posterior da coxa esquerda, enquanto câmeras do mundo inteiro registram cada passada. A Argentina abriu sua primeira sessão de treinos rumo à Copa, e o noticiário global trata o episódio como liturgia. Esquecem de mencionar que cada minuto daquela grama, cada câmera apontada, cada credencial pendurada no pescoço de jornalista pertence a um ecossistema que movimenta mais dinheiro do que o PIB de boa parte dos países representados no torneio.

A coxa de um jogador vira manchete porque sustenta um mercado. A entidade que organiza o evento arrecadou, no ciclo anterior, mais de sete bilhões de dólares em direitos comerciais, patrocínios e transmissão, e projeta superar onze bilhões no ciclo atual. Não paga imposto significativo em praticamente nenhum lugar onde opera, exige isenções fiscais como condição contratual para que países sediem o espetáculo, e transfere para os cofres públicos a obrigação de construir estádios, refazer aeroportos, militarizar perímetros e indenizar comerciantes removidos das chamadas zonas de exclusão comercial. O lucro é privado, suíço, blindado. O prejuízo é municipal, estadual, federal, eterno.

Há um padrão histórico que se repete com a precisão de um relógio mecânico. O império romano entregava pão e jogos para distrair a plebe das contas do tesouro, e o sistema funcionou até o momento em que nem o pão sobrava. Os monarcas medievais financiavam torneios suntuosos com tributos extraídos dos camponeses, e os trovadores cantavam a glória do cavaleiro vencedor sem nunca mencionar o pedreiro que morrera erguendo a arquibancada. A diferença contemporânea é meramente tecnológica. Trocou-se o coliseu pela transmissão por satélite, o gladiador pelo atacante, o senador romano pelo executivo de marketing de bebida açucarada. O contrato social, esse, segue idêntico. O povo aplaude. O povo paga. O povo nunca lê a planilha.

Enquanto o craque trabalha movimentos específicos sob supervisão fisioterapêutica, governos das três sedes deste ciclo gastaram bilhões em obras de mobilidade que jamais se pagarão, expulsaram comunidades inteiras das vizinhanças dos estádios em nome de uma legacy infrastructure que costuma virar elefante branco em poucos anos, e suspenderam legislações trabalhistas e ambientais sob pressão direta da entidade organizadora. Existe um eufemismo elegante para esse arranjo, o tal do soft power esportivo, mas o nome antigo e honesto é confisco. Confisco da rua, confisco do orçamento, confisco da soberania jurídica de quem ousou se candidatar a sediar a festa.

O fascínio pelo gênio individual cumpre uma função política precisa. Concentra a atenção pública num corpo humano e desvia o olhar do balanço patrimonial das corporações que estampam suas marcas naquele uniforme. A camisa do astro carrega o logotipo de um banco, de uma seguradora, de uma fabricante de equipamentos esportivos cujas fábricas asiáticas pagam centavos por hora. Cada gol comemorado vira venda casada, e cada lágrima do torcedor vira métrica de engajamento revendida a anunciantes. O jogador é um trabalhador de altíssimo valor agregado num espetáculo que produz bilhionários invisíveis nas tribunas vips, e o operário que assiste do boteco financia o circo com o imposto embutido em cada lata de cerveja.

Quando o apito final soar e o vencedor erguer a taça, restará na mesa o fato incômodo que ninguém transmite ao vivo. As cidades-sede terão dívidas que atravessarão gerações, os patrocinadores terão amortizado o investimento em três trimestres, a entidade organizadora terá engordado seu fundo de reservas em paraíso fiscal europeu, e o contribuinte anônimo terá, mais uma vez, pago a entrada de um espetáculo do qual jamais foi sócio. O craque cuida da coxa porque é seu instrumento de trabalho. Os outros cuidam do bolso do espectador porque é o instrumento de trabalho deles. Entre um posterior lesionado e um orçamento público sangrando, só um dos dois recebe analgésico.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.