Um a zero no Rose Bowl, estádio que outrora abrigou finais memoráveis e hoje serve de laboratório térmico para uma Copa que será disputada sob condições climáticas extremas. O amistoso entre México e Australia, marcado para o vencimento do prazo de inscrição de elencos, foi vendido como teste tático. Na prática, foi ensaio geral de uma operação comercial que movimentará dezenas de bilhões de dólares e cuja conta, como sempre, recairá sobre quem nunca pisará num camarote VIP.

As pausas para resfriamento dos atletas revelam uma verdade incômoda que ninguém quer admitir em voz alta. A entidade máxima do futebol mundial sabia, desde o dia em que entregou a próxima Copa para sedes onde o termômetro flerta com a desidratação fatal, que jogadores correriam riscos reais. Mas o cronograma televisivo manda, os contratos de patrocínio impõem horários, e os direitos de transmissão valem mais que pulmões humanos. O espetáculo precisa começar quando o prime time da costa leste americana exigir, ainda que isso signifique transformar gramados em fornos.

Siga o rastro do dinheiro e a coreografia fica nítida. Federações que assinaram cheques milionários para sediar partidas, fabricantes de equipamento esportivo que pagam fortunas para vestir seleções, conglomerados de bebidas que compram exclusividade dentro dos estádios, redes de fast food que turbinam vendas com campanhas atreladas ao torneio. Cada gole de hidratação institucional num intervalo técnico vale milhões em mídia espontânea. O suor do atleta é commodity precificada em planilhas de marketing antes mesmo de evaporar do gramado.

Há ainda o capítulo dos contribuintes. Governos locais nas cidades-sede correm para reformar avenidas, ampliar aeroportos, construir centros de treinamento que ficarão ociosos meses depois do apito final. O padrão se repete há décadas, do estádio elefante branco na África do Sul ao complexo abandonado no Brasil, passando pelas obras inacabadas que envergonharam o Catar. A festa é privada, o boleto chega coletivo. Quem assistirá ao jogo num botequim de bairro pagará, via tributos, pela cadeira que jamais sentará.

O futebol foi sequestrado faz tempo. Aquilo que nasceu como diversão de operários ingleses virou engrenagem geopolítica usada por monarquias do Golfo para lavar reputação, por democracias decadentes para distrair população irritada com inflação, por executivos que faturam comissões obscenas enquanto vendem sonhos pré-fabricados. Cada amistoso preparatório é peça desse tabuleiro maior, onde a paixão do torcedor é matéria-prima refinada e revendida com margem de exploração que envergonharia um cartel petrolífero.

O placar magro do Rose Bowl será esquecido em semanas. O que permanecerá é a infraestrutura jurídica, fiscal e logística construída em torno desses eventos, sempre privatizando lucro e socializando custo. O torcedor mexicano que vibrou com o gol da vitória, o australiano que lamentou a derrota, o americano que pagou ingresso caro, todos compartilham o mesmo destino. Saem do estádio achando que assistiram a um jogo de futebol. Na verdade, foram extras num filme publicitário de orçamento bilionário, sem direitos autorais, sem royalties, sem direito sequer de reclamar do roteiro.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.