A novidade saiu com cara de descoberta científica revolucionária, mas qualquer mãe de bom senso já sabia há uma década: criança grudada em telinha de TikTok das sete da manhã às onze da noite não vira gênio, vira zumbi ansioso. O Royal College of Paediatrics and Child Health veio agora, em 2026, declarar solenemente que mídia social faz às crianças britânicas o que o cigarro fez aos pulmões da geração anterior. Maravilha. Levaram quinze anos e bilhões em estudos para chegar onde a avó de qualquer um chegou olhando o neto à mesa do almoço. E, claro, a conclusão não é "pais, retomem o controle da casa de vocês". A conclusão é "governo, regule isso aí, proíba, taxe, crie agência, monte comitê".

Repare no truque retórico, porque ele é o coração do golpe. Comparar rede social com cigarro não é metáfora inocente, é projeto de poder. O cigarro virou pretexto para imposto absurdo, embalagem padronizada, proibição em espaço público, campanha de pavor estatal e, no fim, uma indústria inteira regulada do botão ao filtro. É exatamente o roteiro que essa turma quer reproduzir agora com o aplicativo de vídeo curto. Não é sobre proteger criança, porque se fosse sobre proteger criança o discurso começaria e terminaria dentro de casa, com pai e mãe presentes, telefone trancado na gaveta às nove da noite e olho no olho à mesa de jantar. Mas isso não dá emprego para burocrata, não dá manchete para ministro e não dá orçamento para ONG financiada com dinheiro do contribuinte.

E aqui está o detalhe que ninguém de jaleco vai mencionar na coletiva: quem fabricou o problema foi, em boa parte, o próprio Estado que agora se oferece como salvador. Foi o Estado que afundou a educação pública britânica a ponto da escola virar babá eletrônica de tela aberta. Foi o Estado que destruiu a família com décadas de política de welfare que paga melhor ao pai ausente do que ao pai presente. Foi o Estado que entregou criança de quatro anos para creche em tempo integral para que os dois adultos da casa fossem trabalhar para pagar imposto que sustenta o próprio Estado. Agora que o garoto cresceu deprimido, viciado em scroll infinito e incapaz de olhar nos olhos de outro ser humano, a solução proposta é mais Estado. Quer dizer, o incendiário virou bombeiro e ainda cobra hora extra.

Siga o dinheiro e a coisa fica engraçada. Quem ganha com regulação pesada de plataforma? As próprias plataformas grandes, que têm departamento jurídico do tamanho de país pequeno e adoram barreira de entrada que esmaga concorrente menor. Ganha o consultor de compliance, ganha o ex-deputado que virou lobista, ganha o think tank financiado por fundação que financia o estudo que justifica a lei que paga o think tank. Perde o pai que queria escolher por conta própria a que horas o filho devolve o aparelho. Perde o adolescente que terá uma versão sanitizada, paternalizada e estupidificada de internet, decidida por um comitê em Londres. E perde, sobretudo, a ideia de que adulto responsável é capaz de criar o próprio filho sem precisar de cartilha do Ministério.

O ponto que essa gente não consegue enxergar, ou finge não enxergar, é simples: o problema não é o algoritmo, é a ausência. A criança não está deprimida porque viu vídeo demais, está deprimida porque ninguém em casa estava ali quando ela viu. A tela só preenche o vazio que o adulto deixou. Proibir a tela sem restaurar o adulto é trocar o sintoma de lugar. Daqui a dez anos vão descobrir, com novo estudo financiado pelo mesmo dinheiro, que a geração criada sob proibição estatal de rede social está deprimida do mesmo jeito, só que agora também é infantilizada, incapaz de fazer escolha e dependente do governo para decidir o que ler, o que ver e o que pensar. Aí virá a próxima regulação, claro, para tratar o problema causado pela regulação anterior. É sempre assim, e sempre foi.

O remédio honesto cabe em uma frase que nenhum doutor da Real Academia ousará dizer em microfone aberto: devolvam a autoridade ao pai, fechem o ministério que se acha pediatra de cinquenta milhões de crianças, e parem de tratar o cidadão adulto como menor incapaz tutelado por especialista. Cigarro mata pulmão. Estado paternalista mata a alma de uma civilização inteira, e mata sorrindo, com diploma na parede e estudo revisado por pares na mão.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.