Trezentos metros. Essa é a distância que separa a sala de jantar de uma família de Poços de Caldas do buraco onde uma mineradora australiana pretende escavar o futuro tecnológico do planeta. O projeto Colossus, da Viridis, promete extrair as cobiçadas terras raras, esses metais com nomes impronunciáveis que alimentam ímãs de turbinas eólicas, baterias de carros elétricos e mísseis guiados. O nome do projeto, registre-se, já é uma pequena obra de honestidade involuntária: colosso é o que se constrói esmagando alguém embaixo. E o alguém, no caso, mora ali, no bairro, com a janela aberta para a serra que em breve será cratera.
O enredo é tão antigo que se poderia recitá-lo de cor. Empresa estrangeira chega prometendo dinheiro, emprego, royalties, progresso, modernização da pauta exportadora, inserção do Brasil na cadeia global do hidrogênio verde, dignidade restituída ao município esquecido. O político local, que até ontem não sabia distinguir neodímio de dipirona, vira de uma semana para outra especialista em geologia estratégica. O secretário estadual descobre uma vocação mineral até então oculta. O ministro do Meio Ambiente, aquele mesmo que ontem cercava o garimpeiro com helicóptero, hoje agiliza licença ambiental em nome da transição energética. E o morador, que vivia em paz com o sabiá no quintal, recebe um folheto colorido explicando que sua zona residencial agora se chama, em linguagem técnica, área de influência direta.
Sigamos o dinheiro, que é o único guia honesto nessas histórias. Quem ganha com a mina? A mineradora australiana, evidentemente, que extrai por centavos o que vende por dólares. Os fundos de investimento de Sydney e Melbourne, que precificaram a ação na bolsa antes mesmo da primeira pá entrar no chão. A camada de consultoria ambiental, jurídica e de relações governamentais que circula entre Brasília, Belo Horizonte e a sede da empresa cobrando honorários gordos para produzir relatórios que ninguém lê. O político que será fotografado cortando a fita inaugural. E quem paga? O morador a trezentos metros, que respirará a poeira, ouvirá a detonação, verá o lençol freático rebaixar, e na hora de vender a casa descobrirá que ela vale a metade. A conta da modernidade verde sempre chega no boleto do vizinho.
Aqui se desnuda o truque retórico mais batido do vocabulário desenvolvimentista: chamar de zona de sacrifício o que em qualquer manual decente de civilização se chamaria de confisco. Sacrifício pressupõe oferta voluntária a uma divindade superior. Mas ninguém ali ofereceu coisa alguma. A casa foi construída, a vida foi montada, o bairro foi sendo tecido geração após geração, e de repente vem o agente exterior, munido de licença carimbada por burocrata distante, e decreta que aquele pedaço de chão entrou no cardápio do interesse nacional. Não há sacrifício, há expropriação fatiada, lenta, com anestesia jurídica. O que os antigos faziam à força de espada, hoje se faz à força de portaria.
E observe a inversão semântica que sustenta o arranjo. Chamam de transição energética o que é, na prática, transferência de externalidades: a Europa quer carro elétrico limpo, a Austrália quer dividendo robusto, e o Sul de Minas fica com o passivo ambiental que ninguém mais quer no quintal. É a velha divisão internacional do trabalho repaginada em fonte ecologicamente correta. Os países centrais consomem virtude, os periféricos produzem buraco. E o Estado brasileiro, sempre solícito, atua como cartório dessa troca desigual, cobrando comissão modesta em royalties que somem nos labirintos do orçamento antes mesmo de chegar ao asfalto da rua afetada. Pergunte ao morador de qualquer cidade mineradora do Brasil onde foram parar os bilhões prometidos. A resposta virá em forma de silêncio constrangido, ou de barragem rompida.
Se as terras raras são tão estratégicas quanto se proclama, que sejam então tratadas como propriedade de quem está sobre elas, e não como bem público a ser concedido a peso de lobby para o estrangeiro de plantão. Que cada morador a trezentos metros tenha direito de barganhar, recusar, vender pelo preço que lhe pareça justo, ou simplesmente cruzar os braços e dizer não. O resto é encenação. Quando a propaganda fala em desenvolvimento sustentável, dignidade regional e cadeia produtiva de alto valor agregado, traduza mentalmente: alguém de fora vai levar o minério, alguém de dentro vai ficar com o pó, e no meio do caminho um intermediário simpático com terno bem cortado vai justificar tudo em nome de um bem coletivo que jamais coletivamente foi consultado. O rei continua nu, e a coroa, dessa vez, é feita de neodímio.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.